Friday, April 07, 2006

GOVERNO - PASSADO E FUTURO

“Organiza-se tudo: é simples e evidente. Mas o sofrimento humano intervém e altera todos os planos”

Albert Camus

No mês passado o governo socialista celebrou o seu primeiro aniversário e o novo Presidente da República assumiu funções. Apoiei, e apoio, as linhas gerais da política do governo socialista. Posso vir a arrepender-me! Mas, hoje por hoje, não vejo outra saída viável para o futuro da comunidade.

Não esqueço a política nem menosprezo a sua importância. Mas seria hipócrita negar que me afasto dela irremediavelmente observando os seus jogos, omissões, injustiças, cobardias e silêncios. O meu ponto de observação da política encontra-se num lugar cada vez mais distante dela. Muitos factos sustentam esta convicção.O meu é, provavelmente, o ponto de vista do cidadão comum, ou melhor, do cidadão comum/cumpridor. E, face à minha história de vida, aprendi que este é o mais incómodo dos lugares. O cidadão que “cumpre”, agindo com fidelidade às suas próprias convicções, coloca-se do outro lado da típica “não inscrição” portuguesa, correndo o risco, paradoxal, de ser sacrificado no sacrossanto altar da inveja nacional.

Os presentes tempos de governação socialista não me fazem esquecer os três anos que a antecederam. Desde as eleições legislativas de Março de 2002 até Março de 2005, data da entrada em funções deste governo, ocorreram um conjunto de acontecimentos que, ao menos politicamente, deveriam ser muito bem explicados.

Como foi possível Santana Lopes ter sido primeiro-ministro de Portugal? Como foi possível ter deixado o governo cair nas mãos de um grupo de gente – para ser elegante – sem escrúpulos nem sentido de estado.

Como foi possível permitir que o PP tenha ocupado, nas coligações de direita, as pastas ministeriais da Defesa, da Justiça e das Finanças! Para não falar da Segurança Social e do Ambiente! O que aconteceu, de verdade, na gestão dessas pastas durante aqueles três anos? Qual o balanço? Quem o fez? Quem o fará? Ninguém?

Muitos de nós sabemos, por experiência própria, a tragédia da governação de direita. Sabemos dos desmandos praticados, a todos os níveis da administração, que ainda hoje estão por reparar sendo que muitos são irreparáveis.

Os governos de direita, em Portugal, não fundam a sua acção nem em convicções ideológicas nem em valores que são próprios das famílias políticas da direita noutras latitudes. Todo o programa político da direita portuguesa, seja de inspiração laica ou católica, institucional ou populista, social democrática, liberal ou democrata cristã, se esgota na mera gestão de interesses particulares e na procura dos melhores métodos para a captura da coisa pública em favor desses interesses.

Ora os governos, em democracia, têm por obrigação zelar pelo interesse geral, ou seja, pelo interesse de toda a comunidade. Se o governo socialista o não fizer com justiça, bom senso e sentido de futuro, será severamente punido.

Para os socialistas governar não é só uma questão de alcançar as metas quantitativas – deficit e outros indicadores macroeconómicos – que fixou para o próximo futuro e que a própria direita, envergonhada, aplaude. É, antes de mais, uma questão de concretizar os objectivos qualitativos destinados a modernizar o estado e a sociedade escolhendo as pessoas capazes de os fazer cumprir.

Para os socialistas governar não é só uma questão de alargar a liberdade de escolha – o mercado – mas ir mais além, valorizando a igualdade de oportunidades e as funções aqueles que, na administração pública e no mundo empresarial, trabalham e cumprem. E esses são a maioria ao contrário do que, muitas vezes, se quer fazer crer.

Tenho muitas dúvidas acerca de algumas escolhas do governo socialista mas não tenho dúvidas de que este é o único governo que, neste tempo, poderia merecer a minha escolha.

Tenho muitas dúvidas acerca da orientação política e ideológica do magistério presidencial de Cavaco Silva mas o tempo dirá se Sócrates+Cavaco é um somatório de virtudes ou um cemitério de esperanças.

É que, por vezes, tudo é simples e evidente. “Mas o sofrimento humano intervém e altera todos os planos”.

(Artigo publicado na edição de hoje, 7 de Abril de 2006, do "Semanário Económico")

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