Em seu discurso exibido em uma gravação em vídeo, o dramaturgo chama o presidente Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair de terroristas.
(Estado de S. Paulo)
Cerimônia na Real Academia Sueca, em Estocolmo
São Paulo - Harold Pinter, o dramaturgo britânico que renovou a linguagem teatral no século 20, está impedido de receber o prêmio na entrega oficial do Prêmio Nobel de Literatura que será realizada neste sábado - o editor de Pinter é o encarregado de recebê-lo em seu nome. Um câncer no esôfago o mantém hospitalizado e proibido de viajar por seus médicos. Impedido também de fazer o discurso de praxe de aceitação do prêmio em Estocolmo, na última quarta-feira, enviou uma gravação em vídeo exibida para convidados do reino da Suécia e representantes da imprensa.
Conhecido como um dos maiores ativistas pelo desarmamento nuclear e radicalmente anti-Bush, fez, como se esperava desde o anúncio de seu nome, em outubro, duras críticas à Guerra no Iraque e à política externa do governo norte-americano, chamando o presidente Bush e o primeiro-ministro britânico Tony Blair de terroristas e pedindo que fossem julgados por seus atos.
Leia a íntegra de seu discurso:
Em 1958, escrevi o seguinte: "Não há distinções explícitas entre o que é real e o que é irreal, tampouco entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; ela pode ser tanto falsa quanto verdadeira." Creio que essas afirmações ainda fazem sentido e certamente se aplicam à exploração da realidade por meio da arte. Portanto, como escritor, eu as defendo; todavia, como cidadão, não posso fazê-lo. Como cidadão devo perguntar: O que é verdadeiro? O que é falso?
A verdade, no teatro, é sempre enganosa. Jamais conseguimos encontrá-la totalmente, mas a perseguimos de forma compulsiva. Essa busca é, sem dúvida alguma, o que motiva tal esforço. A busca é tarefa nossa. Com muita freqüência, tropeçamos na verdade em meio às trevas, topamos com ela ou vislumbramos apenas uma imagem ou um vulto que parece corresponder à verdade, sem nos dar conta, tantas vezes, do que se passou. Contudo, a verdade real é que não há nunca, em tempo algum, na arte dramática, isto a que chamamos de verdade única. As verdades são muitas. Elas desafiam umas às outras, esquivam-se umas das outras, refletem-se, ignoram umas às outras, importunam umas às outras, são cegas umas para as outras.
Com freqüência, sentimos que temos nas mãos a verdade de um momento, para em seguida vê-la escorrer por entre os dedos e se perder. Perguntam-me muitas vezes como concebo minhas peças. Não sei. Também não posso resumi-las, digo apenas o que se passou. Foi isto o que disseram; isto o que fizeram. A maior parte delas brota de uma fala, de uma palavra ou de uma imagem. A palavra dada é, não raro, seguida logo depois da imagem.
Darei dois exemplos de duas falas que me vieram à mente de forma inesperada seguidas de uma imagem, seguidas então por mim. As peças são A Volta ao Lar (The Homecoming) e Antigamente (Old Times). A primeira fala de A Volta ao Lar é "O que você fez com a tesoura?" E a primeira fala de Antigamente é "Escuro". Em ambos os casos, eu não dispunha de nenhuma outra informação. No primeiro exemplo, alguém estava obviamente procurando uma tesoura e indagava do paradeiro dela a uma pessoa que, segundo suspeitas do autor da pergunta, a teria roubado. De algum modo, porém, eu sabia que a pessoa a quem a pergunta havia sido dirigida não dava a mínima para a tesoura e tampouco para a pessoa que lhe fizera a pergunta.
Com "escuro" eu fazia referência ao cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e era a resposta a uma pergunta. Nos dois casos, senti-me obrigado a insistir no que tinha. Foi uma ocorrência visual, de um desbotado que passou muito lentamente das sombras para a luz. Sempre começo minhas peças chamando os personagens de A, B e C.
Na peça que se tornou A Volta ao Lar, vi um homem entrar em uma sala sóbria e dirigir sua pergunta a outro homem mais jovem, sentado em um sofá ordinário e que se entretinha com a leitura de um jornal sobre corridas. Não sei por que, mas eu suspeitava que A fosse o pai e, B, seu filho, mas não tinha provas disso.
Minha impressão se confirmou, porém, pouco tempo depois, quando B (posteriormente batizado de Lenny) diz a A (ou Max, como eu o chamaria mais adiante), "Pai, você se importa se eu mudar de assunto? Queria lhe perguntar uma coisa. Aquele prato que comemos antes, como se chama? Qual o nome dele? Por que você não compra um cachorro? Você daria um bom cozinheiro de comida para cachorro. Verdade. Quando você cozinha, parece que está cozinhando para uma porção de cachorros." Portanto, uma vez que B chama A de "Pai", pareceu-me lógico supor que se tratava de pai e filho. A, naturalmente, era o cozinheiro, e sua comida não parecia ter uma reputação muito boa. Será que isso quer dizer que não havia uma mãe? Eu não sabia. Contudo, como dizia para mim mesmo na época, nossos começos não conhecem jamais nossos fins.
"Escuro". Uma janela grande. Céu crepuscular. Um homem. A (mais tarde Deeley), e uma mulher (mais tarde Kate), estão sentados com seus respectivos drinks. "Gorda ou magra?", o homem pergunta. De quem falam? Vejo então, à janela, uma mulher, C (futura Anna), banhada por uma luz diferente, de costas para os dois, de cabelo escuro.
É um momento estranho, o momento da criação dos personagens que, até aquele momento, não existiam. O que se segue é fragmentário, incerto, alucinante mesmo, embora às vezes possa se tornar uma avalanche incontrolável. É curiosa a condição do autor. Em certo sentido, ele não goza da simpatia dos personagens. Eles o enfrentam, dificultam a convivência, não se deixam definir. É impossível dar-lhes ordens. Em certo sentido, jogamos com eles um jogo que nunca termina, gato e rato, cabra-cega, esconde-esconde.
No fim das contas, porém, percebemos que temos pessoas de carne e osso nas mãos, gente dotada de vontade e de sensibilidade própria, feita de partes que não podemos alterar, manipular ou distorcer. Portanto, a linguagem na arte constitui uma transação extremamente ambígua, é areia movediça, uma cama elástica, um lago congelado que a qualquer momento poderá ceder sob os pés do autor. Contudo, como já disse, a busca pela verdade nunca termina. Ela não pode ser interrompida, não pode ser adiada. Deve-se encará-la, ali mesmo, de frente.
O teatro político apresenta um conjunto de problemas totalmente distinto. É preciso evitar a todo custo os sermões. A objetividade é essencial. Os personagens precisam respirar por si. O autor não pode confiná-los e obrigá-los a satisfazer seu gosto pessoal, sua vontade, seus preconceitos. Ele deve estar preparado para se aproximar deles de diversos ângulos diferentes, de perspectivas totalmente despojadas, pegá-los de surpresa, talvez, de vez em quando, sem contudo privá-los da liberdade de ir aonde queiram. Nem sempre isso funciona. E a sátira política, é claro, não obedece a nenhum desses preceitos. Na verdade, ela faz exatamente o oposto, que é para isso que serve.
Na minha peça Festa de Aniversário (The Birthday Party), creio que deixo uma série de opções operar em uma densa floresta de possibilidades antes de me concentrar finalmente em um ato de subjugação. Língua da Montanha (Mountain Language) não tem a mesma aspiração. Ela é brutal, breve e incômoda, porém os soldados que nela aparecem conseguem se divertir um pouco. Às vezes nos esquecemos de que os torturadores se entediam facilmente. Eles precisam rir um pouquinho para se animar. Isto foi confirmado, naturalmente, pelos acontecimentos de Abu Ghraib, em Bagdá. Língua da Montanha tem apenas 20 minutos, mas poderia se estender por horas a fio repisando sempre o mesmo tema, indefinidamente, durante horas e horas.
Cinzas às Cinzas (Ashes to Ashes), por outro lado, parece-me se desenrolar debaixo da água. Uma mulher está se afogando, ela ergue a mão em meio às ondas, afunda, desaparece, procura por outros, mas não encontra ninguém, nem acima, nem abaixo da água, exceto sombras e reflexos que bóiam; a mulher é uma figura perdida em uma paisagem que afunda, uma mulher incapaz de escapar à sina que parecia pertencer unicamente aos outros. Contudo, à medida que morrem, também ela deve morrer.
A linguagem política, conforme o emprego que fazem dela os políticos, não se aventura por nenhum desses territórios, uma vez que a maioria dos políticos, pelas evidências de que dispomos, não estão interessados na verdade, e sim no poder e na manutenção do poder. Para manter o poder é imprescindível que as pessoas permaneçam na ignorância, que vivam em estado de ignorância em relação à verdade, até mesmo a verdade que diz respeito à sua própria vida. Estamos, portanto, rodeados por uma vasta rede de mentiras, das quais nos alimentamos.
Como é de conhecimento geral, a justificativa para a invasão do Iraque era de que Saddam Hussein possuía um arsenal extremamente perigoso de armas de destruição em massa, algumas das quais poderiam ser disparadas em 45 minutos, ocasionando uma destruição pavorosa. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade. Nos disseram que o Iraque mantinha relações com a Al-Qaeda, e que era co-responsável pela atrocidade que se abateu sobre Nova York em 11 de Setembro de 2001. Garantiram-nos que era verdade. Não era. Nos disseram que o Iraque era uma ameaça à segurança do mundo. Garantiram-nos que era verdade. Não era.
A verdade é algo completamente diferente. A verdade diz respeito à forma como os Estados Unidos entendem seu papel no mundo e ao modo que escolheram para protagonizá-lo.
Antes, porém, de voltar ao presente, gostaria de examinar o passado recente, e com isso quero me referir à política externa dos Estados Unidos desde o fim da 2.ª Guerra Mundial. Creio que é nossa obrigação submeter esse período a algum tipo de escrutínio, ainda que limitado, já que o tempo de que dispomos não nos permitiria mais do que isso. Todo o mundo sabe o que aconteceu na União Soviética e em todo o Leste europeu no período que se seguiu ao pós-guerra: uma brutalidade sistemática, atrocidades generalizadas, a supressão impiedosa do pensamento independente. Tudo isso se acha fartamente documentado e comprovado. Contudo, minha opinião neste caso é de que os crimes dos Estados Unidos no mesmo período foram registrados de modo apenas superficial, não houve de forma alguma preocupação em documentá-los, muito menos em reconhecê-los ou admiti-los como crimes. Creio que é preciso tocar nesse ponto.
A verdade tem um peso considerável sobre a situação atual do mundo. Embora restritas até certo ponto pela existência da União Soviética, as ações dos Estados Unidos pelo mundo afora deixavam claro que eles haviam chegado à conclusão de que tinham carta branca para fazer o que bem entendessem. A invasão pura e simples de um Estado soberano nunca foi o método favorito dos Estados Unidos. De modo geral, eles sempre preferiram o que chamam de "conflito de baixa intensidade". Isto significa que milhares de pessoas morrem, porém mais lentamente do que se jogássemos uma bomba sobre elas. Significa que o coração de um país é infectado, que plantamos nele um crescimento maligno e observamos a gangrena se espalhar. Depois de subjugar o populacho - ou de violentá-lo até a morte, o que dá no mesmo -, você e seus amigos, os militares e as grandes empresas instalam-se confortavelmente no poder. Em seguida, você diz diante das câmeras que a democracia prevaleceu. Isso era comum na política externa dos Estados Unidos nos anos a que me referi.
A tragédia da Nicarágua é emblemática nesse sentido. Decidi apresentá-la aqui como exemplo categórico de como os Estados Unidos entendem seu papel no mundo, tanto naquela época quanto nos dias de hoje. Eu estive presente a uma reunião na embaixada americana em Londres em fins dos anos 1980. O Congresso dos EUA devia decidir se concedia ou não mais verbas para os Contras em sua campanha de oposição ao Estado da Nicarágua. Eu era membro de uma delegação que representava a Nicarágua, porém o membro mais importante da delegação era o padre John Metcalf. O chefe do corpo diplomático americano era Raymond Seitz (na época, o número dois da embaixada; mais tarde ele se tornaria embaixador).
O padre Metcalf disse: "Senhor, sou responsável por uma paróquia no norte da Nicarágua. Meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde e um centro cultural. Sempre vivemos em paz. Faz alguns meses, um grupo dos Contras atacou a paróquia. Eles destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o centro cultural. Violentaram freiras e professoras, assassinaram médicos da maneira mais brutal possível. Comportaram-se como selvagens. Por favor, exija que o governo dos Estados Unidos retire seu apoio a essas atividades terroristas revoltantes."
Raymond Seitz tinha uma reputação excelente de sujeito racional, responsável e muito sofisticado. Ele era bastante respeitado nos círculos diplomáticos. Ele ouviu, fez uma pausa e disse então com uma certa gravidade: "Padre", disse ele, "deixe-me dizer-lhe uma coisa. Na guerra, os inocentes sempre sofrem". Houve um silêncio glacial. Nós o fitamos. Ele não se abalou.
Inocentes, de fato, sempre sofrem. Por fim, alguém disse: "Neste caso, porém, os inocentes foram vítimas de uma atrocidade hedionda patrocinada pelo seu governo, uma das muitas. Se o Congresso der mais dinheiro aos Contras, outras atrocidades do mesmo tipo se seguirão, não é verdade? Portanto, devemos responsabilizar seu governo por apoiar a destruição e o assassinato de cidadãos de um Estado soberano?" Seitz continuava impassível. "Não creio que os fatos, conforme apresentados, justifiquem suas afirmações", disse ele. Quando saíamos da embaixada, um adido americano me disse que gostava das minhas peças. Não respondi. Vale lembrar que, na época, o presidente Reagan deu a seguinte declaração: "Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores."
Os Estados Unidos apoiaram a ditadura brutal de Somoza na Nicarágua durante mais de 40 anos. O povo nicaragüense, liderado pelos sandinistas, derrubou o regime em 1979 numa revolução popular magnífica. Os sandinistas não eram perfeitos. Tinham sua cota de arrogância e sua filosofia política continha uma série de elementos contraditórios. Contudo, eram inteligentes, racionais e civilizados. Eles estavam determinados a estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista. A pena de morte foi abolida. Centenas de milhares de camponeses fustigados pela pobreza foram resgatados da morte. Mais de 100.000 famílias foram assentadas em terra própria. Foram construídos dois milhões de escolas. Uma campanha de alfabetização extraordinária reduziu o analfabetismo no país para menos de um sétimo. Escolas e serviços de saúde agora eram gratuitos. A mortalidade infantil foi reduzida em um terço. A pólio foi erradicada.
Os Estados Unidos denunciaram essas realizações atribuindo-as à subversão marxista-leninista. Na opinião do governo americano, criava-se assim um exemplo perigoso. Se deixassem que a Nicarágua estabelecesse padrões elementares de justiça social e econômica, se permitissem que o país elevasse os padrões de saúde e de educação, conquistando a unidade social e o auto-respeito nacional, os países vizinhos começariam a fazer as mesmas perguntas e a agir do mesmo modo. Havia na época, evidentemente, uma forte resistência à situação de El Salvador. Referi-me anteriormente à "rede de mentiras" que nos envolve. O presidente Reagan costumava-se referir freqüentemente à Nicarágua como "masmorra totalitária". A mídia, de modo geral, e certamente o governo britânico, achavam que a observação era precisa e bem aplicada.
Não havia, porém, registro algum de esquadrões da morte no governo sandinista. Não havia registros de tortura. Não havia nenhum registro de brutalidade sistemática ou de brutalidade praticada por militares. Nenhum padre foi morto na Nicarágua. Na verdade, havia três sacerdotes no governo, dois jesuítas e um missionário de Maryknoll. As masmorras totalitárias ficavam nos países vizinhos, El Salvador e Guatemala.
Os Estados Unidos depuseram o governo guatemalteco, eleito democraticamente, em 1954. Estima-se que mais de 200.000 pessoas tenham sido vítimas de sucessivas ditaduras militares. Seis dos mais renomados jesuítas do mundo foram cruelmente assassinados na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 1989, por um batalhão do regimento de Alcatl treinado em Fort Benning, no estado americano da Geórgia. O arcebispo Romero, um homem de coragem extraordinária, foi assassinado quando rezava missa. Calcula-se que 75.000 pessoas tenham morrido. E por que elas foram mortas? Porque acreditavam na possibilidade de uma vida melhor, e queriam conquistá-la. Essa fé as qualificava imediatamente como comunistas. Elas morreram porque ousaram questionar o status quo, um platô onde não se divisava o fim da pobreza, das doenças, da degradação e da opressão herdadas desde o berço.
Os Estados Unidos derrubaram por fim o governo sandinista. Foram necessários alguns anos e uma resistência considerável, contudo, depois de uma perseguição econômica implacável e 30.000 mortos, o espírito do povo nicaragüense estava alquebrado. O desânimo e a pobreza triunfaram novamente. Os cassinos voltaram ao país. As escolas e os serviços de saúde deixaram de ser gratuitos. Os grandes negócios voltaram com força total. A "democracia" tinha prevalecido.
Todavia, essa "política" não se restringia de modo algum à América Central. Ela foi aplicada no mundo todo. Não acabava nunca. E era como se jamais tivesse acontecido. Os Estados Unidos apoiaram e, em muitos casos, produziram todas as ditaduras militares de direita do mundo depois da 2.ª Guerra Mundial. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e, é claro, o Chile.
O horror que os Estados Unidos impuseram ao Chile, em 1973, não se apagará e não se perdoará jamais. Centenas de milhares de mortes foram contabilizadas nesses países. Elas aconteceram de fato? Deve-se atribuí-las em todos os casos à política externa dos EUA? A resposta é sim, elas aconteceram, e são de responsabilidade da política externa dos EUA. Mas ninguém sabe disso. Nada jamais aconteceu. Mesmo quando acontecia não estava acontecendo. Não importava. Não tinha interesse.
Os crimes praticados pelos Estados Unidos são sistemáticos, constantes, cruéis, impiedosos, mas muito pouca gente toca no assunto. É por obra dos Estados Unidos que é assim. Eles manipulam o poder com extrema frieza no mundo todo fazendo-se passar por força universal do bem. Trata-se de uma sessão de hipnose brilhante, engenhosa mesmo, e muito bem-sucedida.
Digo a vocês que os Estados Unidos nos oferecem, sem dúvida alguma, o maior espetáculo da terra. Brutal, indiferente, escarnecedor e cruel, mas também muito inteligente. Como todo vendedor, está sempre só, e seu campeão de vendas é o amor próprio. É um vencedor.
Perceba como todos os presidentes americanos quando vão à televisão dizem "o povo americano", como na seguinte frase: "Digo ao povo americano que é hora de orar e de defender os direitos do povo americano. Peço ao povo americano que confie no seu presidente naquilo que ele em breve fará a favor do povo americano." É um estratagema brilhante. Emprega-se a linguagem para manter o pensamento em xeque. As palavras "o povo americano" funcionam como uma espécie de almofada extremamente confortável e tranqüilizante. Não é necessário pensar. Bastar recostar na almofada. Ela talvez sufoque sua inteligência e suas faculdades críticas, mas é muito confortável.
Isto, é claro, não se aplica aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e aos 2 milhões de prisioneiros do imenso gulag de prisões espalhadas por todo o país. Os Estados Unidos não se importam mais com o conflito de baixa intensidade. Eles não vêem mais vantagem alguma em se manter reticentes ou mesmo distantes. Eles agora põem as cartas sobre a mesa sem nenhum tipo de escrúpulo. Não dão a menor bola para as Nações Unidas, para a lei internacional ou para a dissidência crítica, as quais considera impotentes e irrelevantes. Têm também seu próprio carneirinho, que os segue balindo pela coleira, o patético e inerte Reino Unido.
O que foi que aconteceu com nossa sensibilidade moral? Ou será que nunca tivemos tal coisa? O que significam essas palavras? Seriam uma referência a um termo raramente empregado hoje em dia - consciência? Uma consciência que diga respeito não apenas aos nossos próprios atos, mas também à responsabilidade compartilhada nos atos dos outros? Não existe mais nada disso?
Tome-se o caso da base de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem nenhuma acusação durante mais de três anos, sem direito à representação legal ou a processo legal justo, tecnicamente detidas para sempre. Essa estrutura completamente ilegítima é mantida em desrespeito à Convenção de Genebra. Ela não é apenas tolerada, como também raras vezes é alvo de alguma reflexão por parte daquela entidade que se convencionou chamar de "comunidade internacional".
Essa afronta criminosa é perpetrada por um país que se declara "líder do mundo livre". Alguma vez já paramos para pensar na população da base de Guantánamo? O que os meios de comunicação dizem a esse respeito? Volta e meia o tema vem à tona - um texto bem curto na página seis. Aquelas pessoas foram despachadas para uma terra de ninguém, da qual talvez nunca retornem. Atualmente, muitos estão em greve de fome, e são alimentados à força, inclusive britânicos. Não faltam a essa alimentação forçada lances de barbarismo. Não se administram sedativos ou anestésicos. Enfia-se um tubo pelo nariz da pessoa até a garganta. Ela vomita sangue.
Isso é tortura. O que tem a dizer a esse respeito o secretário de Relações Exteriores britânico? Nada. O que tem a dizer a esse respeito o primeiro-ministro britânico? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar nossa conduta na base de Guantánamo é atitude hostil. Ou vocês estão conosco ou estão contra nós. Blair fechou a boca.
A invasão do Iraque foi coisa de bandoleiros, um ato ostensivo de terrorismo de Estado, uma demonstração cabal de desprezo pelo conceito de lei internacional. A invasão foi uma ação militar arbitrária inspirada por uma série de mentiras em cima de mentiras e grosseira manipulação da mídia e, portanto, do público. Foi um ato que teve como propósito consolidar o controle militar e econômico dos Estados Unidos no Oriente Médio travestindo-o - como último recurso - de libertação, já que todas as demais justificativas haviam falhado em justificar a si mesmas. Essa demonstração de força militar fabulosa foi responsável pela morte e mutilação de milhares de pessoas inocentes. Levamos ao povo iraquiano a tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, incontáveis assassinatos praticados aleatoriamente, infelicidade, degradação e morte e a isso chamamos de "levar a liberdade e a democracia ao Oriente Médio".
Quantas pessoas temos de matar para que sejamos considerados assassinos de multidões e criminosos de guerra? Cem mil? Isso seria mais do que suficiente, creio. Portanto, é justo que Bush e Blair sejam denunciados ao Tribunal Internacional de Justiça. Bush, porém, é mais esperto. Ele não ratificou o protocolo que criou o Tribunal Internacional de Justiça. Portanto, se qualquer soldado americano, ou um político qualquer, for levado ao banco dos réus, Bush já avisou que enviará os fuzileiros navais em seu socorro. Tony Blair, porém, ratificou o Tribunal e pode, portanto, ser processado. Podemos dar seu endereço ao Tribunal, se este demonstrar interesse pelo assunto. Basta que procurem no n.º 10 da rua Downing, em Londres.
A morte neste contexto é irrelevante. Tanto Bush quanto Blair colocam a morte no último lugar da sua lista de preocupações. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos por bombas e mísseis americanos antes do início da revolta popular. Essas pessoas não têm importância alguma. A morte delas não conta. Elas não existem. Não há sequer registro de sua morte. "Não contamos corpos", disse o general americano Tommy Franks.
Logo no início da invasão os jornais britânicos publicaram na primeira página uma foto de Tony Blair dando um beijo no rosto de um menino iraquiano. "Uma criança agradecida", dizia a legenda. Poucos dias depois os jornais publicaram nas páginas centrais a história de outro garotinho de quatro anos sem braços. Sua família havia sido atingida por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. "Quando vou ter meus braços de volta?", queria saber. A história não teve continuidade.
Bem, Tony Blair não o estava segurando nos baços, tampouco segurava o corpo de outra criança mutilada, muito menos um cadáver ensangüentado. Sangue é coisa suja. Ele suja a camisa e a gravata de quem tem um discurso sincero a fazer pela televisão. Os 2.000 americanos mortos são motivo de constrangimento. Eles são transportados para suas sepulturas no escuro. Os funerais são discretos, realizados em local seguro. Os mutilados apodrecem em seus leitos, alguns permanecem nesse estado até a morte. Portanto, tanto os mortos quanto os mutilados apodrecem em tipos diferentes de sepulturas.
Em um poema intitulado Explico Algumas Coisas (Explico Algunas Cosas), Pablo Neruda diz a certa altura:
"E numa certa manhã tudo ardia,
numa manhã o fogo
saltava da terra
devorando os seres,
e ardia,
havia pólvora,
e sangue.
Bandidos com aviões e mouros,
bandidos com anéis nos dedos e duquesas,
bandidos com frades negros e suas bendições
vinham pelo céu matar crianças,
e o sangue delas escorria pelas ruas
sem ruído algum, corria como sangue de criança.
Chacais que seriam alvo de desprezo de outros chacais,
pedras que o cardo seco morderia
e cuspiria, víboras que as próprias víboras abominariam!
Face a face com vocês vi o sangue
da Espanha erguer-se
para afogá-los em uma onda
de orgulho e de facas!
Generais
traidores:
vejam minha casa morta,
vejam a Espanha alquebrada:
de todas as casas sai um metal
que arde,
em vez de flores,
mas de cada oco da Espanha
a Espanha emerge
e de cada criança morta sai um rifle
com olhos,
e de cada crime nascem balas
que um dia encontrarão o caminho
do coração de vocês.
E vocês me perguntarão:
por que os poemas dele
não falam de sonhos, e de folhas
e dos grandes vulcões de sua terra natal.
Venham e vejam o sangue nas ruas,
venham e vejamo sangue nas ruas,
venham e vejam o sanguenas ruas!"
Quero deixar claro que, ao citar o poema de Neruda, não estou de forma alguma comparando a Espanha Republicana com o Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em parte alguma da poesia contemporânea li uma descrição tão veemente e tão visceral sobre o bombardeamento de civis. Disse anteriormente que os Estados Unidos colocam hoje abertamente as cartas sobre a mesa. É a isso que me refiro. Sua política oficial explícita é definida agora como "dominância total do espectro". A expressão não é minha, é deles. "Dominância total do espectro" implica o controle da terra, do mar, ar e espaço, bem como de todos os recursos correspondentes.
Os Estados Unidos ocupam atualmente 702 instalações militares no mundo em 132 países, com a honrosa exceção da Suécia, é claro. Não sabemos exatamente como foi que eles foram parar lá, mas eles estão lá. Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares ativas e operacionais.
Duas mil dessas ogivas podem ser disparadas 15 minutos depois de dada a autorização. Eles estão desenvolvendo novos sistemas de força nuclear, conhecidas como arromba-bunkers.
Os britânicos, sempre tão cooperativos, pretendem substituir seu míssil nuclear, o Trident. Eu gostaria muito de saber em quem eles estão mirando. Em Osama bin Laden? Em você? Em mim? Em ninguém em especial? Na China? Em Paris? Quem sabe? O que sabemos de fato é que essa insanidade infantil - a posse de armas nucleares e a ameaça de usá-las - está no âmago da filosofia política americana atual. Não podemos nos esquecer de que os Estados Unidos estão em permanente pé de guerra, e não há sinal de que pretendam relaxar nem um pouco. Muitos milhares, se não milhões, de pessoas nos Estados Unidos estão enojadas, envergonhadas e iradas com as atitudes do governo do seu país, mas na atual situação elas não formam uma força política coerente - por enquanto.
Contudo, a ansiedade, a incerteza e o temor que vemos crescer nos Estados Unidos não devem diminuir. Sei que o presidente Bush tem muita gente talentosa para escrever os seus discursos, mas eu gostaria de me apresentar voluntariamente para o serviço.
Proponho a transmissão pela TV da seguinte alocução à nação: vejo-o com ar grave, o cabelo cuidadosamente penteado, a expressão séria, vencedora, sincera, sedutora, por vezes com um sorriso torto no rosto, atraente, embora excêntrico. "Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. Meu Deus é bom. O Deus de bin Laden é mau. Ele é um Deus malvado. O Deus de Saddam era mau, embora ele não tivesse Deus algum. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Não cortamos a cabeça das pessoas. Acreditamos na liberdade. Deus também. Não sou bárbaro. Sou um líder eleito democraticamente de uma democracia amante da liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Eletrocutamos e administramos injeções letais de forma compassiva. Somos uma grande nação. Não sou um ditador. Ele é. Não sou bárbaro. Ele é. Todos eles são. Eu tenho autoridade moral. Estão vendo este pulso? Esta é minha autoridade moral. Não se esqueçam disso."
A vida de um escritor é uma atividade muito vulnerável e praticamente desnuda. Não temos de chorar por causa disso. O escritor faz sua escolha e se aferra a ela. Mas é verdade que estamos abertos a todos os ventos, alguns deles bem gelados. Estamos sós, numa posição vulnerável. Não encontramos abrigo que nos proteja - a menos que nos tornemos mentirosos - e nesse caso, é claro, a mentira se torna nossa proteção.
Poderíamos também nos tornar políticos. Falei da morte algumas vezes esta noite. Citarei agora um poema meu intitulado Morte:
Onde foi encontrado o corpo sem vida?
Quem o encontrou?
Ele estava morto quando foi encontrado?
Como foi encontrado?
Quem era ele?
Quem era o pai ou a filha ou o irmão
ou o tio ou a irmã ou a mãe ou o filho do morto,
e que abandonou o corpo?
O corpo estava morto quando foi abandonado?
O corpo foi abandonado?
Por quem foi ele abandonado?
O corpo morto estava nuou vestido para uma viagem?
O que o levou a concluirque o corpo morto estava morto?
Você disse que o corpo morto estava morto?
Você conhecia bem o corpo morto?
Como você soube que o corpo morto estava morto?
Você o lavou?
Você fechou seus olhos?
Você enterrou o corpo?
Você o abandonou?
Você enterrou o corpo?
Você o beijou?
Quando olhamos no espelho, achamos que a imagem que nos confronta é precisa. Se, porém, nos movermos um milímetro que seja, veremos que a imagem muda. Estamos, na verdade, olhando para um conjunto infinito de reflexos. Às vezes, porém, o escritor tem de quebrar o espelho - porque é do outro lado que a verdade nos observa.
Creio que apesar das enormes desvantagens com que nos deparamos, a determinação intelectual firme e inabalável, como cidadãos, que nos permite definir a verdade real de nossas vidas e de nossas sociedades é uma tarefa crucial que cabe a todos nós. É, na realidade, imprescindível que assim seja. Se nossa visão política prescinde de tal determinação, não nos resta esperança alguma de restaurar aquilo que, por pouco, não perdemos - a dignidade do homem.
Tradução Antivan Mendes
Tuesday, December 13, 2005
Monday, December 12, 2005
Harold Pinter - Conférence Nobel
Art, vérité & politique
En 1958 j’ai écrit la chose suivante :
« Il n’y a pas de distinctions tranchées entre ce qui est réel et ce qui est irréel, entre ce qui est vrai et ce qui est faux. Une chose n’est pas nécessairement vraie ou fausse ; elle peut être tout à la fois vraie et fausse. »
Je crois que ces affirmations ont toujours un sens et s’appliquent toujours à l’exploration de la réalité à travers l’art. Donc, en tant qu’auteur, j’y souscris encore, mais en tant que citoyen je ne peux pas. En tant que citoyen, je dois demander : Qu’est-ce qui est vrai ? Qu’est-ce qui est faux ?
La vérité au théâtre est à jamais insaisissable. Vous ne la trouvez jamais tout à fait, mais sa quête a quelque chose de compulsif.Cette quête est précisément ce qui commande votre effort. Cette quête est votre tâche. La plupart du temps vous tombez sur la vérité par hasard dans le noir, en entrant en collision avec elle, ou en entrevoyant simplement une image ou une forme qui semble correspondre à la vérité, souvent sans vous rendre compte que vous l’avez fait. Mais la réelle vérité, c’est qu’il n’y a jamais, en art dramatique, une et une seule vérité à découvrir. Il y en a beaucoup. Ces vérités se défient l’une l’autre, se dérobent l’une à l’autre, se reflètent, s’ignorent, se narguent, sont aveugles l’une à l’autre. Vous avez parfois le sentiment d’avoir trouvé dans votre main la vérité d’un moment, puis elle vous glisse entre les doigts et la voilà perdue.
On m’a souvent demandé comment mes pièces voyaient le jour. Je ne saurais le dire. Pas plus que je ne saurais résumer mes pièces, si ce n’est pour dire voilà ce qui s’est passé. Voilà ce qu’ils ont dit. Voilà ce qu’ils ont fait.
La plupart des pièces naissent d’une réplique, d’un mot ou d’une image. Le mot s’offre le premier, l’image le suivant souvent de près. Je vais vous donner deux exemples de répliques qui me sont venues à l’esprit de façon totalement inattendue, suivies par une image, que j’ai moi-même suivie.
Les pièces en question sont Le Retour et C’était hier. La première réplique du Retour est « Qu’est-ce que tu as fait des ciseaux ? » La première réplique de C’était hier est « Bruns ».
Dans un cas comme dans l’autre je n’avais pas d’autres indications.
Dans le premier cas, quelqu’un, à l’évidence, cherchait une paire de ciseaux et demandait où ils étaient passés à quelqu’un d’autre dont il soupçonnait qu’il les avait probablement volés. Mais d’une manière ou d’une autre je savais que la personne à qui on s’adressait se fichait éperdument des ciseaux, comme de celui qui posait la question, d’ailleurs.
« Bruns » : je présumais qu’il s’agissait de la description des cheveux de quelqu’un, les cheveux d’une femme, et que cela répondait à une question. Dans l’un et l’autre cas, je me suis trouvé contraint de poursuivre la chose. Tout se passait visuellement, un très lent fondu, passant de l’ombre à la lumière.
Je commence toujours une pièce en appelant les personnages A, B et C.
Dans la pièce qui est devenue Le Retour je voyais un homme entrer dans une pièce austère et poser sa question àun homme plus jeune, assis sur un affreux canapé, le nez dans un journal des courses. Je soupçonnais vaguement que A était un père et que B était son fils, mais je n’en avais aucune preuve. Cela s’est néanmoins confirmé un peu plus tard quand B (qui par la suite deviendrait Lenny) dit à A (qui par la suite deviendrait Max), « Papa, tu permets que je change de sujet ? Je voudrais te demander quelque chose. Ce qu’on a mangé au dîner tout à l’heure, ça s’appelait comment ? Tu appelles ça comment ? Pourquoi tu n’achètes pas un chien ? Tu es un cuisinier pour chiens. Franchement. Tu crois donc que tu fais la cuisine pour une bande de chiens. 1 » Donc, dès lors que B appelait A « Papa », il me semblait raisonnable d’admettre qu’ils étaient père et fils. A, manifestement, était aussi le cuisinier et sa cuisine ne semblait pas être tenue en bien haute estime. Cela voulait-il dire qu’il n’y avait pas de mère ? Je n’en savais rien. Mais, comme je me le répétais à l’époque, nos débuts ne savent jamais de quoi nos fins seront faites.
« Bruns. » Une grande fenêtre. Ciel du soir. Un homme, A (qui par la suite deviendrait Deeley), et une femme, B (qui par la suite deviendrait Kate), assis avec des verres. « Grosse ou mince ? » demande l’homme. De qui parlent-ils ? C’est alors que je vois, se tenant à la fenêtre, une femme, C (qui par la suite deviendrait Anna), dans une autre qualité de lumière, leur tournant le dos, les cheveux bruns.
C’est un étrange moment, le moment où l’on crée des personnages qui n’avaient jusque-là aucune existence. Ce qui suit est capricieux, incertain, voire hallucinatoire, même si cela peut parfois prendre la forme d’une avalanche que rien ne peut arrêter. La position de l’auteur est une position bizarre. En un sens, les personnages ne lui font pas bon accueil. Les personnages lui résistent, ils ne sont pas faciles à vivre, ils sont impossibles à définir. Vous ne pouvez certainement pas leur donner d’ordres. Dans une certaine mesure vous vous livrez avec eux à un jeu interminable, vous jouez au chat et à la souris, à colin-maillard, à cache-cache. Mais vous découvrez finalement que vous avez sur les bras des êtres de chair et de sang, des êtres possédant une volonté et une sensibilité individuelle bien à eux, faits de composantes que vous n’êtes pas en mesure de changer, manipuler ou dénaturer.
Le langage, en art, demeure donc une affaire extrêmement ambiguë, des sables mouvants, un trampoline, une mare gelée qui pourrait bien céder sous vos pieds, à vous l’auteur, d’un instant à l’autre.
Mais, comme je le disais, la quête de la vérité ne peut jamais s’arrêter. Elle ne saurait être ajournée, elle ne saurait être différée. Il faut l’affronter là, tout de suite.
Le théâtre politique présente un ensemble de problèmes totalement différents. Les sermons doivent être évités à tout prix. L’objectivité est essentielle. Il doit être permis aux personnages de respirer un air qui leur appartient. L’auteur ne peut les enfermer ni les entraver pour satisfaire le goût, l’inclination ou les préjugés qui sont les siens. Il doit être prêt à les aborder sous des angles variés, dans des perspectives très diverses, ne connaissant ni frein ni limite, les prendre par surprise, peut-être, de temps en temps, tout en leur laissant la liberté de suivre le chemin qui leur plaît. Ça ne fonctionne pas toujours. Et la satire politique, bien évidemment, n’obéit à aucun de ces préceptes, elle fait même précisément l’inverse, ce qui est d’ailleurs sa fonction première.
Dans ma pièce L’Anniversaire il me semble que je lance des pistes d’interprétation très diverses, les laissant opérer dans une épaisse forêt de possibles avant de me concentrer, au final, sur un acte de soumission.
Langue de la montagne ne prétend pas opérer de manière aussi ouverte. Tout y est brutal, bref et laid. Les soldats de la pièce trouvent pourtant le moyen de s’amuser de la situation. On oublie parfois que les tortionnaires s’ennuient très facilement. Ils ont besoin de rire un peu pour garder le moral. Comme l’ont bien évidemment confirmé les événements d’Abu Ghraib à Bagdad. Langue de la montagne ne dure que vingt minutes, mais elle pourrait se prolonger pendant des heures et des heures, inlassablement, répétant le même schéma encore et encore, pendant des heures et des heures.
Ashes to Ashes, pour sa part, me semble se dérouler sous l’eau. Une femme qui se noie, sa main se tendant vers la surface à travers les vagues, retombant hors de vue, se tendant vers d’autres mains, mais ne trouvant là personne, ni au-dessus ni au-dessous de l’eau, ne trouvant que des ombres, des reflets, flottant ; la femme, une silhouette perdue dans un paysage qui se noie, une femme incapable d’échapper au destin tragique qui semblait n’appartenir qu’aux autres.
Mais comme les autres sont morts, elle doit mourir aussi.
Le langage politique, tel que l’emploient les hommes politiques, ne s’aventure jamais sur ce genre de terrain, puisque la majorité des hommes politiques, à en croire les éléments dont nous disposons, ne s’intéressent pas à la vérité mais au pouvoir et au maintien de ce pouvoir. Pour maintenir ce pouvoir il est essentiel que les gens demeurent dans l’ignorance, qu’ils vivent dans l’ignorance de la vérité, jusqu’à la vérité de leur propre vie. Ce qui nous entoure est donc un vaste tissu de mensonges, dont nous nous nourrissons.
Comme le sait ici tout un chacun, l’argument avancé pour justifier l’invasion de l’Irak était que Saddam Hussein détenait un arsenal extrêmement dangereux d’armes de destruction massive, dont certaines pouvaient être déchargées en 45 minutes, provoquant un effroyable carnage. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai. On nous disait que l’Irak entretenait des relations avec Al Qaïda et avait donc sa part de responsabilitédans l’atrocité du 11 septembre 2001 à New York. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai. On nous disait que l’Irak menaçait la sécurité du monde. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai.
La vérité est totalement différente. La vérité est liée à la façon dont les États-Unis comprennent leur rôle dans le monde et la façon dont ils choisissent de l’incarner.
Mais avant de revenirau temps présent, j’aimerais considérer l’histoire récente, j’entends par là la politique étrangère des États-Unis depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale. Je crois qu’il est pour nous impératif de soumettre cette période à un examen rigoureux, quoique limité, forcément, par le temps dont nous disposons ici.
Tout le monde sait ce qui s’est passé en Union Soviétique et dans toute l’Europe de l’Est durant l’après-guerre : la brutalité systématique, les atrocités largement répandues,la répression impitoyable de toute pensée indépendante. Tout cela a été pleinement documenté et attesté.
Mais je soutiens que les crimes commis par les États-Unis durant cette même période n’ont été que superficiellement rapportés, encore moins documentés, encore moins reconnus, encore moins identifiés àdes crimes tout court. Je crois que la question doit être abordée et que la vérité a un rapport évident avec l’état actuel du monde. Bien que limitées, dans une certaine mesure, par l’existence de l’Union Soviétique, les actions menées dans le monde entier par les États-Unis donnaient clairement à entendre qu’ils avaient décrété avoir carte blanche pour faire ce qu’ils voulaient.
L’invasion directe d’un état souverain n’a jamais été, de fait, la méthode privilégiée de l’Amérique. Dans l’ensemble, elle préférait ce qu’elle a qualifié de « conflit de faible intensité ».« Conflit de faible intensité », cela veut dire que des milliers de gens meurent, mais plus lentement que si vous lâchiez une bombe sur eux d’un seul coup.Cela veut dire que vous contaminez le cœur du pays, que vous y implantez une tumeur maligne et que vous observez s’étendre la gangrène. Une fois que le peuple a été soumis – ou battu à mort – ça revient au même – et que vos amis, les militaires et les grandes sociétés commerciales, sont confortablement installés au pouvoir, vous allez devant les caméras et vous déclarez que la démocratie l’a emporté. C’était monnaie courante dans la politique étrangère américaine dans les années auxquelles je fais allusion.
La tragédie du Nicaragua s’est avérée être un cas extrêmement révélateur. Si je décide de l’évoquer ici, c’est qu’il illustre de façon convaincante la façon dont l’Amérique envisage son rôle dans le monde, aussi bien à l’époque qu’aujourd’hui.
J’ai assisté à une réunion qui s’est tenue à l’Ambassade des États-Unis à Londres à la fin des années 80.
Le Congrès américain était sur le point de décider s’il fallait ou non donner davantage d’argent aux Contras dans la campagne qu’ils menaient contre l’État du Nicaragua. J’étais là en tant que membre d’une délégation parlant au nom du Nicaragua, mais le membre le plus important de cette délégation était un certain Père John Metcalf. Le chef de file du camp américain était Raymond Seitz (alors bras droit de l’ambassadeur, lui-même nommé ambassadeur par la suite).
Père Metcalf a dit : « Monsieur, j’ai la charge d’une paroisse au nord du Nicaragua. Mes paroissiens ont construit une école, un centre médico-social, un centre culturel. Nous avons vécu en paix. Il y a quelques mois une force de la Contra a attaqué la paroisse. Ils ont tout détruit : l’école, le centre médico-social, le centre culturel. Ils ont violé les infirmières et les institutrices, massacré les médecins, de la manière la plus brutale. Ils se sont comportés comme des sauvages. Je vous en supplie, exigez du gouvernement américain qu’il retire son soutien à cette odieuse activité terroriste. »
Raymond Seitz avait très bonne réputation, celle d’un homme rationnel, responsable et très bien informé. Il était grandement respecté dans les cercles diplomatiques. Il a écouté, marqué une pause, puis parlé avec une certaine gravité. « Père, dit-il, laissez-moi vous dire une chose. En temps de guerre, les innocents souffrent toujours. » Il y eut un silence glacial. Nous l’avons regardé d’un œil fixe. Il n’a pas bronché.
Les innocents, certes, souffrent toujours.
Finalement quelqu’un a dit : « Mais dans le cas qui nous occupe, des « innocents » ont été les victimes d’une atrocité innommable financée par votre gouvernement, une parmi tant d’autres. Si le Congrès accorde davantage d’argent aux Contras, d’autres atrocités de cette espèce seront perpétrées. N’est-ce pas le cas ? Votre gouvernement n’est-il pas par là même coupable de soutenir des actes meurtriers et destructeurs commis sur les citoyens d’un état souverain ? »
Seitz était imperturbable. « Je ne suis pas d’accord que les faits, tels qu’ils nous ont été exposés, appuient ce que vous affirmez là », dit-il.
Alors que nous quittions l’ambassade, un conseiller américain m’a dit qu’il aimait beaucoup mes pièces. Je n’ai pas répondu.
Je dois vous rappeler qu’à l’époque le Président Reagan avait fait la déclaration suivante : « Les Contras sont l’équivalent moral de nos Pères fondateurs. »
Les États-Unis ont pendant plus de quarante ans soutenu la dictature brutale de Somoza au Nicaragua. Le peuple nicaraguayen, sous la conduite des Sandinistes, a renversé ce régime en 1979, une révolution populaire et poignante.
Les Sandinistes n’étaient pas parfaits. Ils avaient leur part d’arrogance et leur philosophie politique comportait un certain nombre d’éléments contradictoires. Mais ils étaient intelligents, rationnels et civilisés. Leur but était d’instaurer une société stable, digne, et pluraliste. La peine de mort a été abolie. Des centaines de milliers de paysans frappés par la misère ont été ramenés d’entre les morts. Plus de 100 000 familles se sont vues attribuer un droit à la terre. Deux mille écoles ont été construites. Une campagne d’alphabétisation tout à fait remarquable a fait tomber le taux d’analphabétisme dans le pays sous la barre des 15%. L’éducation gratuite a été instaurée ainsi que la gratuité des services de santé. La mortalité infantile a diminué d’un tiers. La polio a été éradiquée.
Les États-Unis accusèrent ces franches réussites d’être de la subversion marxiste-léniniste. Aux yeux du gouvernement américain, le Nicaragua donnait là un dangereux exemple. Si on lui permettait d’établir les normes élémentaires de la justice économique et sociale, si on lui permettait d’élever le niveau des soins médicaux et de l’éducation et d’accéder à une unité sociale et une dignité nationale, les pays voisins se poseraient les mêmes questions et apporteraient les mêmes réponses. Il y avait bien sûr à l’époque, au Salvador, une résistance farouche au statu quo.
J’ai parlé tout à l’heure du « tissu de mensonges » qui nous entoure. Le Président Reagan qualifiait couramment le Nicaragua de « donjon totalitaire ». Ce que les médias, et assurément le gouvernement britannique, tenaient généralement pour une observation juste et méritée. Il n’y avait pourtant pas trace d’escadrons de la mort sous le gouvernement sandiniste. Il n’y avait pas trace de tortures. Il n’y avait pas trace de brutalité militaire, systématique ou officielle. Aucun prêtre n’a jamais été assassiné au Nicaragua. Il y avait même trois prêtres dans le gouvernement sandiniste, deux jésuites et un missionnaire de la Société de Maryknoll. Les « donjons totalitaires » se trouvaient en fait tout à côté, au Salvador et au Guatemala. Les États-Unis avaient, en 1954, fait tomber le gouvernement démocratiquement élu du Guatemala et on estime que plus de 200 000 personnes avaient été victimes des dictatures militaires qui s’y étaient succédé.
En 1989, six des plus éminents jésuites du monde ont été violemment abattus à l’Université Centraméricaine de San Salvador par un bataillon du régiment Alcatl entraîné à Fort Benning, Géorgie, USA. L’archevêque Romero, cet homme au courage exemplaire, a été assassiné alors qu’il célébrait la messe. On estime que 75 000 personnes sont mortes. Pourquoi a-t-on tué ces gens-là ? On les a tués parce qu’ils étaient convaincus qu’une vie meilleure était possible et devait advenir. Cette conviction les a immédiatement catalogués comme communistes. Ils sont morts parce qu’ils osaient contester le statu quo, l’horizon infini de pauvreté, de maladies, d’humiliation et d’oppression, le seul droit qu’ils avaient acquis à la naissance.
Les États-Unis ont fini par faire tomber le gouvernement sandiniste. Cela leur prit plusieurs années et ils durent faire preuve d’une ténacité considérable,mais une persécution économique acharnée et 30 000 morts ont fini par ébranler le courage des Nicaraguayens. Ils étaient épuisés et de nouveau misérables. L’économie « casino » s’est réinstallée dans le pays. C’en était fini de la santé gratuite et de l’éducation gratuite. Les affaires ont fait un retour en force. La « Démocratie » l’avait emporté.
Mais cette « politique » ne se limitait en rien à l’Amérique Centrale. Elle était menée partout dans le monde. Elle était sans fin. Et c’est comme si ça n’était jamais arrivé.
Les États-Unis ont soutenu, et dans bien des cas engendré, toutes les dictatures militaires droitières apparues dans le monde à l’issue de la Seconde Guerre mondiale. Je veux parler de l’Indonésie, de la Grèce, de l’Uruguay, du Brésil, du Paraguay, d’Haïti, de la Turquie, des Philippines, du Guatemala, du Salvador, et, bien sûr, du Chili. L’horreur que les États-Unis ont infligée au Chili en 1973 ne pourra jamais être expiée et ne pourra jamais être oubliée.
Des centaines de milliers de morts ont eu lieu dans tous ces pays. Ont-elles eu lieu? Et sont-elles dans tous les cas imputables à la politique étrangère des États-Unis? La réponse est oui, elles ont eu lieu et elles sont imputables à la politique étrangère américaine. Mais vous n’en savez rien.
Ça ne s’est jamais passé. Rien ne s’est jamais passé. Même pendant que cela se passait, ça ne se passait pas. Ça n’avait aucune importance. Ça n’avait aucun intérêt. Les crimes commis par les États-Unis ont été systématiques, constants, violents, impitoyables, mais très peu de gens en ont réellement parlé. Rendons cette justice à l’Amérique : elle s’est livrée, partout dans le monde, à une manipulation tout à fait clinique du pouvoir tout en se faisant passer pour une force qui agissait dans l’intérêt du bien universel. Un cas d’hypnose génial, pour ne pas dire spirituel, et terriblement efficace.
Les États-Unis, je vous le dis, offrent sans aucun doute le plus grand spectacle du moment. Pays brutal, indifférent, méprisant et sans pitié, peut-être bien, mais c’est aussi un pays très malin. À l’image d’un commis voyageur, il œuvre tout seul et l’article qu’il vend le mieux est l’amour de soi. Succès garanti. Écoutez tous les présidents américains à la télévision prononcer les mots « peuple américain », comme dans la phrase : « Je dis au peuple américain qu’il est temps de prier et de défendre les droits du peuple américain et je demande au peuple américain de faire confiance à son Président pour les actions qu’il s’apprête à mener au nom du peuple américain. »
Le stratagème est brillant. Le langage est en fait employé pour tenir la pensée en échec. Les mots « peuple américain » fournissent un coussin franchement voluptueux destiné à vous rassurer. Vous n’avez pas besoin de penser. Vous n’avez qu’à vous allonger sur le coussin. Il se peut que ce coussin étouffe votre intelligence et votre sens critique mais il est très confortable. Ce qui bien sûr ne vaut pas pour les 40 millions de gens qui vivent en dessous du seuil de pauvreté ni aux 2 millions d’hommes et de femmes incarcérés dans le vaste goulag de prisons qui s’étend d’un bout à l’autre des États-Unis.
Les États-Unis ne se préoccupent plus des conflits de faible intensité. Ils ne voient plus l’intérêt qu’il y aurait à faire preuve de réserve, ni même de sournoiserie. Ils jouent cartes sur table, sans distinction. C’est bien simple, ils se fichent éperdument des Nations Unies, du droit international ou des voix dissidentes, dont ils pensent qu’ils n’ont aucun pouvoir ni aucune pertinence. Et puis ils ont leur petit agneau bêlant qui les suit partout au bout d’une laisse, la Grande-Bretagne, pathétique et soumise.
Où est donc passée notre sensibilité morale ? En avons-nous jamais eu une ? Que signifient ces mots ? Renvoient-ils à un terme très rarement employé ces temps-ci – la conscience ? Une conscience qui soit non seulement liée à nos propres actes mais qui soit également liée à la part de responsabilité qui est la nôtre dans les actes d’autrui ? Tout cela est-il mort ? Regardez Guantanamo. Des centaines de gens détenus sans chef d’accusation depuis plus de trois ans, sans représentation légale ni procès équitable, théoriquement détenus pour toujours. Cette structure totalement illégitime est maintenue au mépris de la Convention de Genève. Non seulement on la tolère mais c’est à peine si la soi-disant « communauté internationale » en fait le moindre cas. Ce crime scandaleux est commis en ce moment même par un pays qui fait profession d’être « le leader du monde libre ». Est-ce que nous pensons aux locataires de Guantanamo ? Qu’en disent les médias ? Ils se réveillent de temps en temps pour nous pondre un petit article en page six. Ces hommes ont été relégués dans un no man’s land dont ils pourraient fort bien ne jamais revenir. À présent beaucoup d’entre euxfont la grève de la faim, ils sont nourris de force, y compris des résidents britanniques. Pas de raffinements dans ces méthodes d’alimentation forcée. Pas de sédatifs ni d’anesthésiques. Juste un tube qu’on vous enfonce dans le nez et qu’on vous fait descendre dans la gorge. Vous vomissez du sang. C’est de la torture. Qu’en a dit le ministre des Affaires étrangères britannique ? Rien. Qu’en a dit le Premier Ministre britannique ? Rien. Et pourquoi ? Parce que les États-Unis ont déclaré : critiquer notre conduite à Guantanamo constitue un acte hostile. Soit vous êtes avec nous, soit vous êtes contre nous. Résultat, Blair se tait.
L’invasion de l’Irak était un acte de banditisme, un acte de terrorisme d’État patenté, témoignant d’un absolu mépris pour la notion de droit international. Cette invasion était un engagement militaire arbitraire inspiré par une série de mensonges répétés sans fin et une manipulation flagrante des médias et, partant, du public ; une intervention visant à renforcer le contrôle militaire et économique de l’Amérique sur le Moyen-Orient et se faisant passer – en dernier ressort – toutes les autres justifications n’ayant pas réussi à prouver leur bien-fondé – pour une libération. Une red outable affirmation de la force militaire responsable de la mort et de la mutilation de milliers et de milliers d’innocents.
Nous avons apporté au peuple irakien la torture, les bombes à fragmentation, l’uranium appauvri, d’innombrables tueries commises au hasard, la misère, l’humiliation et la mort et nous appelons cela « apporter la liberté et la démocratie au Moyen-Orient ».
Combien de gens vous faut-il tuer avant d’avoir droit au titre de meurtrier de masse et de criminel de guerre ? Cent mille ? Plus qu’assez, serais-je tenté de croire. Il serait donc juste que Bush et Blair soient appelés à comparaître devant la Cour internationale de justice. Mais Bush a été malin. Il n’a pas ratifié la Cour internationale de justice. Donc, si un soldat américain ou, à plus forte raison, un homme politique américain, devait se retrouver au banc des accusés, Bush a prévenu qu’il enverrait les marines. Mais Tony Blair, lui, a ratifié la Cour et peut donc faire l’objet de poursuites.Nous pouvons communiquer son adresse à la Cour si ça l’intéresse. Il habite au 10 Downing Street, Londres.
La mort dans ce contexte devient tout à fait accessoire. Bush et Blair prennent tous deux bien soin de la mettre de côté. Au moins 100 000 Irakiens ont péri sous les bombes et les missiles américains avant que ne commence l’insurrection irakienne. Ces gens-là sont quantité négligeable. Leur mort n’existe pas. Un néant. Ils ne sont même pas recensés comme étant morts. « Nous ne comptons pas les cadavres » a déclaré le général américain Tommy Franks.
Aux premiers jours de l’invasion une photo a été publiée à la une des journaux britanniques ; on y voit Tony Blair embrassant sur la joue un petit garçon irakien. « Un enfant reconnaissant » disait la légende. Quelques jours plus tard on pouvait trouver, en pages intérieures, l’histoire et la photo d’un autre petit garçon de quatre ans qui n’avait plus de bras. Sa famille avait été pulvérisée par un missile. C’était le seul survivant. « Quand est-ce que je retrouverai mes bras ? » demandait-il. L’histoire est passée à la trappe. Eh bien oui, Tony Blair ne le serrait pas contre lui, pas plus qu’il ne serrait dans ses bras le corps d’un autre enfant mutilé, ou le corps d’un cadavre ensanglanté. Le sang, c’est sale. Ça salit votre chemise et votre cravate quand vous parlez avec sincérité devant les caméras de télévision.
Les 2000 morts américains sont embarrassants. On les transporte vers leurs tombes dans le noir. Les funérailles se font discrètement, en lieu sûr. Les mutilés pourrissent dans leurs lits, certains pour le restant de leurs jours. Ainsi les morts et les mutilés pourrissent-ils, dans différentes catégories de tombes.
Voici un extrait de « J’explique certaines choses », un poème de Pablo Neruda :
Et un matin tout était en feu,
et un matin les bûchers
sortaient de la terre
dévorant les êtres vivants,
et dès lors ce fut le feu,
ce fut la poudre,et ce fut le sang.
Des bandits avec des avions, avec des Maures,
des bandits avec des bagues et des duchesses,
des bandits avec des moines noirs pour bénir
tombaient du ciel pour tuer des enfants,
et à travers les rues le sang des enfants
coulait simplement, comme du sang d’enfants.
Chacals que le chacal repousserait,
pierres que le dur chardon mordrait en crachant,
vipères que les vipères détesteraient !
Face à vous j’ai vu le sang
de l’Espagne se lever
pour vous noyer dans une seule vague
d’orgueil et de couteaux !
Générauxde trahison :
regardez ma maison morte,
regardez l’Espagne brisée :
mais de chaque maison morte surgit un métal ardent
au lieu de fleurs,
mais de chaque brèche d’Espagne
surgit l’Espagne,
mais de chaque enfant mort surgit un fusil avec des yeux,
mais de chaque crime naissent des balles
qui trouveront un jour l’endroitde votre cœur.
Vous allez demander pourquoi sa poésie
ne parle-t-elle pas du rêve, des feuilles,
des grands volcans de son pays natal ?
Venez voir le sang dans les rues,
venez voirle sang dans les rues,
venez voirle sang dans les rues ! 2
Laissez-moi préciser qu’en citant ce poème de Neruda je ne suis en aucune façon en train de comparer l’Espagne républicaine à l’Irak de Saddam Hussein. Si je cite Neruda c’est parce que je n’ai jamais lu ailleurs dans la poésie contemporaine de description aussi puissante et viscérale d’un bombardement de civils.
J’ai dit tout à l’heure que les États-Unis étaient désormais d’une franchise totale et jouaient cartes sur table. C’est bien le cas. Leur politique officielle déclarée est désormais définie comme une « full spectrum dominance » (une domination totale sur tous les fronts). L’expression n’est pas de moi, elle est d’eux. « Full spectrum dominance », cela veut dire contrôle des terres, des mers, des airs et de l’espace et de toutes les ressources qui vont avec.
Les États-Unis occupent aujourd’hui 702 installations militaires dans 132 pays du monde entier, à l’honorable exception de la Suède, bien sûr. On ne sait pas trop comment ils en sont arrivés là, mais une chose est sûre, c’est qu’ils y sont.
Les États-Unis détiennent 8000 ogives nucléaires actives et opérationnelles. 2000 sont en état d’alerte maximale, prêtes à être lancées avec un délai d’avertissement de 15 minutes. Ils développent de nouveaux systèmes de force nucléaire, connus sous le nom de « bunker busters » (briseurs de blockhaus). Les Britanniques, toujours coopératifs, ont l’intention de remplacer leur missile nucléaire, le Trident. Qui, je me le demande, visent-ils ? Oussama Ben Laden ? Vous ? Moi ? Tartempion ? La Chine ? Paris ? Qui sait ? Ce que nous savons c’est que cette folie infantile – détenir des armes nucléaires et menacer de s’en servir – est au cœur de la philosophie politique américaine actuelle. Nous devons nous rappeler que les États-Unis sont en permanence sur le pied de guerre et ne laissent entrevoir en la matière aucun signe de détente.
Des milliers, sinon des millions, de gens aux États-Unis sont pleins de honte et de colère, visiblement écœurés par les actions de leur gouvernement, mais en l’état actuel des choses, ils ne constituent pas une force politique cohérente – pas encore. Cela dit, l’angoisse, l’incertitude et la peur que nous voyons grandir de jour en jour aux États-Unis ne sont pas près de s’atténuer.
Je sais que le Président Bush emploie déjà pour écrire ses discours de nombreuses personnes extrêmement compétentes, mais j’aimerais me porter volontaire pour le poste. Je propose la courte allocution suivante, qu’il pourrait faire à la télévision et adresser à la nation. Je l’imagine grave, les cheveux soigneusement peignés, sérieux, avenant, sincère, souvent enjôleur, y allant parfois d’un petit sourire forcé, curieusement séduisant, un homme plus à son aise avec les hommes.
« Dieu est bon. Dieu est grand. Dieu est bon. Mon Dieu est bon. Le Dieu de Ben Laden est mauvais. Le sien est un mauvais Dieu. Le Dieu de Saddam était mauvais, sauf que Saddam n’en avait pas. C’était un barbare. Nous ne sommes pas des barbares. Nous ne tranchons pas la tête des gens. Nous croyons à la liberté. Dieu aussi. Je ne suis pas un barbare. Je suis le leader démocratiquement élu d’une démocratie éprise de liberté. Nous sommes une société pleine de compassion. Nous administrons des électrocutions pleines de compassion et des injections létales pleines de compassion. Nous sommes une grande nation. Je ne suis pas un dictateur. Lui, oui. Je ne suis pas un barbare. Lui, oui. Et lui aussi. Ils le sont tous. Moi, je détiens l’autorité morale. Vous voyez ce poing ? C’est ça, mon autorité morale. Tâchez de ne pas l’oublier. »
La vie d’un écrivain est une activité infiniment vulnérable, presque nue. Inutile de pleurer là-dessus. L’écrivain fait un choix, un choix qui lui colle à la peau. Mais il est juste de dire que vous êtes exposé à tous les vents, dont certains sont glacés bien sûr. Vous œuvrez tout seul, isolé de tout. Vous ne trouvez aucun refuge, aucune protection – sauf si vous mentez – auquel cas bien sûr vous avez construit et assuré vous-même votre protection et, on pourrait vous le rétorquer, vous êtes devenu un homme politique.
J’ai parlé de la mort pas mal de fois ce soir.Je vais maintenant vous lire un de mes poèmes, intitulé « Mort ».
Où a-t-on trouvé le cadavre ?
Qui a trouvé le cadavre ?
Le cadavre était-il mort quand on l’a trouvé ?
Comment a-t-on trouvé le cadavre ?
Qui était le cadavre ?
Qui était le père ou la fille ou le frère
Ou l’oncle ou la sœur ou la mère ou le fils
Du cadavre abandonné ?
Le corps était-il mort quand on l’a abandonné ?
Le corps était-il abandonné ?
Par qui avait-il été abandonné ?
Le cadavre était-il nu ou en costume de voyage ?
Qu’est-ce qui a fait que ce cadavre, vous l’avez déclaré mort ?
Le cadavre, vous l’avez déclaré mort ?
Vous le connaissiez bien, le cadavre ?
Comment saviez-vous que le cadavre était mort ?
Avez-vous lavé le cadavre
Avez-vous fermé ses deux yeux
Avez-vous enterré le corps
L’avez-vous laissé à l’abandon
Avez-vous embrassé le cadavre
Quand nous nous regardons dans un miroir nous pensons que l’image qui nous fait face est fidèle. Mais bougez d’un millimètre et l’image change. Nous sommes en fait en train de regarder une gamme infinie de reflets.Mais un écrivain doit parfois fracasser le miroir – car c’est de l’autre côté de ce miroir que la vérité nous fixe des yeux.
Je crois que malgré les énormes obstacles qui existent, être intellectuellement résolus, avec une détermination farouche, stoïque et inébranlable, à définir, en tant que citoyens, la réelle vérité de nos vies et de nos sociétés est une obligation cruciale qui nous incombe à tous. Elle est même impérative.
Si une telle détermination ne s’incarne pas dans notre vision politique, nous n’avons aucun espoir de restaurer ce que nous sommes si près de perdre – notre dignité d’homme.
1. Harold Pinter : Le Retour. Traduction Éric Kahane. Gallimard, 1969.
2. Pablo Neruda : « J’explique certaines choses », dans Résidence sur la terre, III. Traduction Guy Suarès. Gallimard, 1972.
Traduction Séverine Magois
(Retirado daqui)
En 1958 j’ai écrit la chose suivante :
« Il n’y a pas de distinctions tranchées entre ce qui est réel et ce qui est irréel, entre ce qui est vrai et ce qui est faux. Une chose n’est pas nécessairement vraie ou fausse ; elle peut être tout à la fois vraie et fausse. »
Je crois que ces affirmations ont toujours un sens et s’appliquent toujours à l’exploration de la réalité à travers l’art. Donc, en tant qu’auteur, j’y souscris encore, mais en tant que citoyen je ne peux pas. En tant que citoyen, je dois demander : Qu’est-ce qui est vrai ? Qu’est-ce qui est faux ?
La vérité au théâtre est à jamais insaisissable. Vous ne la trouvez jamais tout à fait, mais sa quête a quelque chose de compulsif.Cette quête est précisément ce qui commande votre effort. Cette quête est votre tâche. La plupart du temps vous tombez sur la vérité par hasard dans le noir, en entrant en collision avec elle, ou en entrevoyant simplement une image ou une forme qui semble correspondre à la vérité, souvent sans vous rendre compte que vous l’avez fait. Mais la réelle vérité, c’est qu’il n’y a jamais, en art dramatique, une et une seule vérité à découvrir. Il y en a beaucoup. Ces vérités se défient l’une l’autre, se dérobent l’une à l’autre, se reflètent, s’ignorent, se narguent, sont aveugles l’une à l’autre. Vous avez parfois le sentiment d’avoir trouvé dans votre main la vérité d’un moment, puis elle vous glisse entre les doigts et la voilà perdue.
On m’a souvent demandé comment mes pièces voyaient le jour. Je ne saurais le dire. Pas plus que je ne saurais résumer mes pièces, si ce n’est pour dire voilà ce qui s’est passé. Voilà ce qu’ils ont dit. Voilà ce qu’ils ont fait.
La plupart des pièces naissent d’une réplique, d’un mot ou d’une image. Le mot s’offre le premier, l’image le suivant souvent de près. Je vais vous donner deux exemples de répliques qui me sont venues à l’esprit de façon totalement inattendue, suivies par une image, que j’ai moi-même suivie.
Les pièces en question sont Le Retour et C’était hier. La première réplique du Retour est « Qu’est-ce que tu as fait des ciseaux ? » La première réplique de C’était hier est « Bruns ».
Dans un cas comme dans l’autre je n’avais pas d’autres indications.
Dans le premier cas, quelqu’un, à l’évidence, cherchait une paire de ciseaux et demandait où ils étaient passés à quelqu’un d’autre dont il soupçonnait qu’il les avait probablement volés. Mais d’une manière ou d’une autre je savais que la personne à qui on s’adressait se fichait éperdument des ciseaux, comme de celui qui posait la question, d’ailleurs.
« Bruns » : je présumais qu’il s’agissait de la description des cheveux de quelqu’un, les cheveux d’une femme, et que cela répondait à une question. Dans l’un et l’autre cas, je me suis trouvé contraint de poursuivre la chose. Tout se passait visuellement, un très lent fondu, passant de l’ombre à la lumière.
Je commence toujours une pièce en appelant les personnages A, B et C.
Dans la pièce qui est devenue Le Retour je voyais un homme entrer dans une pièce austère et poser sa question àun homme plus jeune, assis sur un affreux canapé, le nez dans un journal des courses. Je soupçonnais vaguement que A était un père et que B était son fils, mais je n’en avais aucune preuve. Cela s’est néanmoins confirmé un peu plus tard quand B (qui par la suite deviendrait Lenny) dit à A (qui par la suite deviendrait Max), « Papa, tu permets que je change de sujet ? Je voudrais te demander quelque chose. Ce qu’on a mangé au dîner tout à l’heure, ça s’appelait comment ? Tu appelles ça comment ? Pourquoi tu n’achètes pas un chien ? Tu es un cuisinier pour chiens. Franchement. Tu crois donc que tu fais la cuisine pour une bande de chiens. 1 » Donc, dès lors que B appelait A « Papa », il me semblait raisonnable d’admettre qu’ils étaient père et fils. A, manifestement, était aussi le cuisinier et sa cuisine ne semblait pas être tenue en bien haute estime. Cela voulait-il dire qu’il n’y avait pas de mère ? Je n’en savais rien. Mais, comme je me le répétais à l’époque, nos débuts ne savent jamais de quoi nos fins seront faites.
« Bruns. » Une grande fenêtre. Ciel du soir. Un homme, A (qui par la suite deviendrait Deeley), et une femme, B (qui par la suite deviendrait Kate), assis avec des verres. « Grosse ou mince ? » demande l’homme. De qui parlent-ils ? C’est alors que je vois, se tenant à la fenêtre, une femme, C (qui par la suite deviendrait Anna), dans une autre qualité de lumière, leur tournant le dos, les cheveux bruns.
C’est un étrange moment, le moment où l’on crée des personnages qui n’avaient jusque-là aucune existence. Ce qui suit est capricieux, incertain, voire hallucinatoire, même si cela peut parfois prendre la forme d’une avalanche que rien ne peut arrêter. La position de l’auteur est une position bizarre. En un sens, les personnages ne lui font pas bon accueil. Les personnages lui résistent, ils ne sont pas faciles à vivre, ils sont impossibles à définir. Vous ne pouvez certainement pas leur donner d’ordres. Dans une certaine mesure vous vous livrez avec eux à un jeu interminable, vous jouez au chat et à la souris, à colin-maillard, à cache-cache. Mais vous découvrez finalement que vous avez sur les bras des êtres de chair et de sang, des êtres possédant une volonté et une sensibilité individuelle bien à eux, faits de composantes que vous n’êtes pas en mesure de changer, manipuler ou dénaturer.
Le langage, en art, demeure donc une affaire extrêmement ambiguë, des sables mouvants, un trampoline, une mare gelée qui pourrait bien céder sous vos pieds, à vous l’auteur, d’un instant à l’autre.
Mais, comme je le disais, la quête de la vérité ne peut jamais s’arrêter. Elle ne saurait être ajournée, elle ne saurait être différée. Il faut l’affronter là, tout de suite.
Le théâtre politique présente un ensemble de problèmes totalement différents. Les sermons doivent être évités à tout prix. L’objectivité est essentielle. Il doit être permis aux personnages de respirer un air qui leur appartient. L’auteur ne peut les enfermer ni les entraver pour satisfaire le goût, l’inclination ou les préjugés qui sont les siens. Il doit être prêt à les aborder sous des angles variés, dans des perspectives très diverses, ne connaissant ni frein ni limite, les prendre par surprise, peut-être, de temps en temps, tout en leur laissant la liberté de suivre le chemin qui leur plaît. Ça ne fonctionne pas toujours. Et la satire politique, bien évidemment, n’obéit à aucun de ces préceptes, elle fait même précisément l’inverse, ce qui est d’ailleurs sa fonction première.
Dans ma pièce L’Anniversaire il me semble que je lance des pistes d’interprétation très diverses, les laissant opérer dans une épaisse forêt de possibles avant de me concentrer, au final, sur un acte de soumission.
Langue de la montagne ne prétend pas opérer de manière aussi ouverte. Tout y est brutal, bref et laid. Les soldats de la pièce trouvent pourtant le moyen de s’amuser de la situation. On oublie parfois que les tortionnaires s’ennuient très facilement. Ils ont besoin de rire un peu pour garder le moral. Comme l’ont bien évidemment confirmé les événements d’Abu Ghraib à Bagdad. Langue de la montagne ne dure que vingt minutes, mais elle pourrait se prolonger pendant des heures et des heures, inlassablement, répétant le même schéma encore et encore, pendant des heures et des heures.
Ashes to Ashes, pour sa part, me semble se dérouler sous l’eau. Une femme qui se noie, sa main se tendant vers la surface à travers les vagues, retombant hors de vue, se tendant vers d’autres mains, mais ne trouvant là personne, ni au-dessus ni au-dessous de l’eau, ne trouvant que des ombres, des reflets, flottant ; la femme, une silhouette perdue dans un paysage qui se noie, une femme incapable d’échapper au destin tragique qui semblait n’appartenir qu’aux autres.
Mais comme les autres sont morts, elle doit mourir aussi.
Le langage politique, tel que l’emploient les hommes politiques, ne s’aventure jamais sur ce genre de terrain, puisque la majorité des hommes politiques, à en croire les éléments dont nous disposons, ne s’intéressent pas à la vérité mais au pouvoir et au maintien de ce pouvoir. Pour maintenir ce pouvoir il est essentiel que les gens demeurent dans l’ignorance, qu’ils vivent dans l’ignorance de la vérité, jusqu’à la vérité de leur propre vie. Ce qui nous entoure est donc un vaste tissu de mensonges, dont nous nous nourrissons.
Comme le sait ici tout un chacun, l’argument avancé pour justifier l’invasion de l’Irak était que Saddam Hussein détenait un arsenal extrêmement dangereux d’armes de destruction massive, dont certaines pouvaient être déchargées en 45 minutes, provoquant un effroyable carnage. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai. On nous disait que l’Irak entretenait des relations avec Al Qaïda et avait donc sa part de responsabilitédans l’atrocité du 11 septembre 2001 à New York. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai. On nous disait que l’Irak menaçait la sécurité du monde. On nous assurait que c’était vrai. Ce n’était pas vrai.
La vérité est totalement différente. La vérité est liée à la façon dont les États-Unis comprennent leur rôle dans le monde et la façon dont ils choisissent de l’incarner.
Mais avant de revenirau temps présent, j’aimerais considérer l’histoire récente, j’entends par là la politique étrangère des États-Unis depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale. Je crois qu’il est pour nous impératif de soumettre cette période à un examen rigoureux, quoique limité, forcément, par le temps dont nous disposons ici.
Tout le monde sait ce qui s’est passé en Union Soviétique et dans toute l’Europe de l’Est durant l’après-guerre : la brutalité systématique, les atrocités largement répandues,la répression impitoyable de toute pensée indépendante. Tout cela a été pleinement documenté et attesté.
Mais je soutiens que les crimes commis par les États-Unis durant cette même période n’ont été que superficiellement rapportés, encore moins documentés, encore moins reconnus, encore moins identifiés àdes crimes tout court. Je crois que la question doit être abordée et que la vérité a un rapport évident avec l’état actuel du monde. Bien que limitées, dans une certaine mesure, par l’existence de l’Union Soviétique, les actions menées dans le monde entier par les États-Unis donnaient clairement à entendre qu’ils avaient décrété avoir carte blanche pour faire ce qu’ils voulaient.
L’invasion directe d’un état souverain n’a jamais été, de fait, la méthode privilégiée de l’Amérique. Dans l’ensemble, elle préférait ce qu’elle a qualifié de « conflit de faible intensité ».« Conflit de faible intensité », cela veut dire que des milliers de gens meurent, mais plus lentement que si vous lâchiez une bombe sur eux d’un seul coup.Cela veut dire que vous contaminez le cœur du pays, que vous y implantez une tumeur maligne et que vous observez s’étendre la gangrène. Une fois que le peuple a été soumis – ou battu à mort – ça revient au même – et que vos amis, les militaires et les grandes sociétés commerciales, sont confortablement installés au pouvoir, vous allez devant les caméras et vous déclarez que la démocratie l’a emporté. C’était monnaie courante dans la politique étrangère américaine dans les années auxquelles je fais allusion.
La tragédie du Nicaragua s’est avérée être un cas extrêmement révélateur. Si je décide de l’évoquer ici, c’est qu’il illustre de façon convaincante la façon dont l’Amérique envisage son rôle dans le monde, aussi bien à l’époque qu’aujourd’hui.
J’ai assisté à une réunion qui s’est tenue à l’Ambassade des États-Unis à Londres à la fin des années 80.
Le Congrès américain était sur le point de décider s’il fallait ou non donner davantage d’argent aux Contras dans la campagne qu’ils menaient contre l’État du Nicaragua. J’étais là en tant que membre d’une délégation parlant au nom du Nicaragua, mais le membre le plus important de cette délégation était un certain Père John Metcalf. Le chef de file du camp américain était Raymond Seitz (alors bras droit de l’ambassadeur, lui-même nommé ambassadeur par la suite).
Père Metcalf a dit : « Monsieur, j’ai la charge d’une paroisse au nord du Nicaragua. Mes paroissiens ont construit une école, un centre médico-social, un centre culturel. Nous avons vécu en paix. Il y a quelques mois une force de la Contra a attaqué la paroisse. Ils ont tout détruit : l’école, le centre médico-social, le centre culturel. Ils ont violé les infirmières et les institutrices, massacré les médecins, de la manière la plus brutale. Ils se sont comportés comme des sauvages. Je vous en supplie, exigez du gouvernement américain qu’il retire son soutien à cette odieuse activité terroriste. »
Raymond Seitz avait très bonne réputation, celle d’un homme rationnel, responsable et très bien informé. Il était grandement respecté dans les cercles diplomatiques. Il a écouté, marqué une pause, puis parlé avec une certaine gravité. « Père, dit-il, laissez-moi vous dire une chose. En temps de guerre, les innocents souffrent toujours. » Il y eut un silence glacial. Nous l’avons regardé d’un œil fixe. Il n’a pas bronché.
Les innocents, certes, souffrent toujours.
Finalement quelqu’un a dit : « Mais dans le cas qui nous occupe, des « innocents » ont été les victimes d’une atrocité innommable financée par votre gouvernement, une parmi tant d’autres. Si le Congrès accorde davantage d’argent aux Contras, d’autres atrocités de cette espèce seront perpétrées. N’est-ce pas le cas ? Votre gouvernement n’est-il pas par là même coupable de soutenir des actes meurtriers et destructeurs commis sur les citoyens d’un état souverain ? »
Seitz était imperturbable. « Je ne suis pas d’accord que les faits, tels qu’ils nous ont été exposés, appuient ce que vous affirmez là », dit-il.
Alors que nous quittions l’ambassade, un conseiller américain m’a dit qu’il aimait beaucoup mes pièces. Je n’ai pas répondu.
Je dois vous rappeler qu’à l’époque le Président Reagan avait fait la déclaration suivante : « Les Contras sont l’équivalent moral de nos Pères fondateurs. »
Les États-Unis ont pendant plus de quarante ans soutenu la dictature brutale de Somoza au Nicaragua. Le peuple nicaraguayen, sous la conduite des Sandinistes, a renversé ce régime en 1979, une révolution populaire et poignante.
Les Sandinistes n’étaient pas parfaits. Ils avaient leur part d’arrogance et leur philosophie politique comportait un certain nombre d’éléments contradictoires. Mais ils étaient intelligents, rationnels et civilisés. Leur but était d’instaurer une société stable, digne, et pluraliste. La peine de mort a été abolie. Des centaines de milliers de paysans frappés par la misère ont été ramenés d’entre les morts. Plus de 100 000 familles se sont vues attribuer un droit à la terre. Deux mille écoles ont été construites. Une campagne d’alphabétisation tout à fait remarquable a fait tomber le taux d’analphabétisme dans le pays sous la barre des 15%. L’éducation gratuite a été instaurée ainsi que la gratuité des services de santé. La mortalité infantile a diminué d’un tiers. La polio a été éradiquée.
Les États-Unis accusèrent ces franches réussites d’être de la subversion marxiste-léniniste. Aux yeux du gouvernement américain, le Nicaragua donnait là un dangereux exemple. Si on lui permettait d’établir les normes élémentaires de la justice économique et sociale, si on lui permettait d’élever le niveau des soins médicaux et de l’éducation et d’accéder à une unité sociale et une dignité nationale, les pays voisins se poseraient les mêmes questions et apporteraient les mêmes réponses. Il y avait bien sûr à l’époque, au Salvador, une résistance farouche au statu quo.
J’ai parlé tout à l’heure du « tissu de mensonges » qui nous entoure. Le Président Reagan qualifiait couramment le Nicaragua de « donjon totalitaire ». Ce que les médias, et assurément le gouvernement britannique, tenaient généralement pour une observation juste et méritée. Il n’y avait pourtant pas trace d’escadrons de la mort sous le gouvernement sandiniste. Il n’y avait pas trace de tortures. Il n’y avait pas trace de brutalité militaire, systématique ou officielle. Aucun prêtre n’a jamais été assassiné au Nicaragua. Il y avait même trois prêtres dans le gouvernement sandiniste, deux jésuites et un missionnaire de la Société de Maryknoll. Les « donjons totalitaires » se trouvaient en fait tout à côté, au Salvador et au Guatemala. Les États-Unis avaient, en 1954, fait tomber le gouvernement démocratiquement élu du Guatemala et on estime que plus de 200 000 personnes avaient été victimes des dictatures militaires qui s’y étaient succédé.
En 1989, six des plus éminents jésuites du monde ont été violemment abattus à l’Université Centraméricaine de San Salvador par un bataillon du régiment Alcatl entraîné à Fort Benning, Géorgie, USA. L’archevêque Romero, cet homme au courage exemplaire, a été assassiné alors qu’il célébrait la messe. On estime que 75 000 personnes sont mortes. Pourquoi a-t-on tué ces gens-là ? On les a tués parce qu’ils étaient convaincus qu’une vie meilleure était possible et devait advenir. Cette conviction les a immédiatement catalogués comme communistes. Ils sont morts parce qu’ils osaient contester le statu quo, l’horizon infini de pauvreté, de maladies, d’humiliation et d’oppression, le seul droit qu’ils avaient acquis à la naissance.
Les États-Unis ont fini par faire tomber le gouvernement sandiniste. Cela leur prit plusieurs années et ils durent faire preuve d’une ténacité considérable,mais une persécution économique acharnée et 30 000 morts ont fini par ébranler le courage des Nicaraguayens. Ils étaient épuisés et de nouveau misérables. L’économie « casino » s’est réinstallée dans le pays. C’en était fini de la santé gratuite et de l’éducation gratuite. Les affaires ont fait un retour en force. La « Démocratie » l’avait emporté.
Mais cette « politique » ne se limitait en rien à l’Amérique Centrale. Elle était menée partout dans le monde. Elle était sans fin. Et c’est comme si ça n’était jamais arrivé.
Les États-Unis ont soutenu, et dans bien des cas engendré, toutes les dictatures militaires droitières apparues dans le monde à l’issue de la Seconde Guerre mondiale. Je veux parler de l’Indonésie, de la Grèce, de l’Uruguay, du Brésil, du Paraguay, d’Haïti, de la Turquie, des Philippines, du Guatemala, du Salvador, et, bien sûr, du Chili. L’horreur que les États-Unis ont infligée au Chili en 1973 ne pourra jamais être expiée et ne pourra jamais être oubliée.
Des centaines de milliers de morts ont eu lieu dans tous ces pays. Ont-elles eu lieu? Et sont-elles dans tous les cas imputables à la politique étrangère des États-Unis? La réponse est oui, elles ont eu lieu et elles sont imputables à la politique étrangère américaine. Mais vous n’en savez rien.
Ça ne s’est jamais passé. Rien ne s’est jamais passé. Même pendant que cela se passait, ça ne se passait pas. Ça n’avait aucune importance. Ça n’avait aucun intérêt. Les crimes commis par les États-Unis ont été systématiques, constants, violents, impitoyables, mais très peu de gens en ont réellement parlé. Rendons cette justice à l’Amérique : elle s’est livrée, partout dans le monde, à une manipulation tout à fait clinique du pouvoir tout en se faisant passer pour une force qui agissait dans l’intérêt du bien universel. Un cas d’hypnose génial, pour ne pas dire spirituel, et terriblement efficace.
Les États-Unis, je vous le dis, offrent sans aucun doute le plus grand spectacle du moment. Pays brutal, indifférent, méprisant et sans pitié, peut-être bien, mais c’est aussi un pays très malin. À l’image d’un commis voyageur, il œuvre tout seul et l’article qu’il vend le mieux est l’amour de soi. Succès garanti. Écoutez tous les présidents américains à la télévision prononcer les mots « peuple américain », comme dans la phrase : « Je dis au peuple américain qu’il est temps de prier et de défendre les droits du peuple américain et je demande au peuple américain de faire confiance à son Président pour les actions qu’il s’apprête à mener au nom du peuple américain. »
Le stratagème est brillant. Le langage est en fait employé pour tenir la pensée en échec. Les mots « peuple américain » fournissent un coussin franchement voluptueux destiné à vous rassurer. Vous n’avez pas besoin de penser. Vous n’avez qu’à vous allonger sur le coussin. Il se peut que ce coussin étouffe votre intelligence et votre sens critique mais il est très confortable. Ce qui bien sûr ne vaut pas pour les 40 millions de gens qui vivent en dessous du seuil de pauvreté ni aux 2 millions d’hommes et de femmes incarcérés dans le vaste goulag de prisons qui s’étend d’un bout à l’autre des États-Unis.
Les États-Unis ne se préoccupent plus des conflits de faible intensité. Ils ne voient plus l’intérêt qu’il y aurait à faire preuve de réserve, ni même de sournoiserie. Ils jouent cartes sur table, sans distinction. C’est bien simple, ils se fichent éperdument des Nations Unies, du droit international ou des voix dissidentes, dont ils pensent qu’ils n’ont aucun pouvoir ni aucune pertinence. Et puis ils ont leur petit agneau bêlant qui les suit partout au bout d’une laisse, la Grande-Bretagne, pathétique et soumise.
Où est donc passée notre sensibilité morale ? En avons-nous jamais eu une ? Que signifient ces mots ? Renvoient-ils à un terme très rarement employé ces temps-ci – la conscience ? Une conscience qui soit non seulement liée à nos propres actes mais qui soit également liée à la part de responsabilité qui est la nôtre dans les actes d’autrui ? Tout cela est-il mort ? Regardez Guantanamo. Des centaines de gens détenus sans chef d’accusation depuis plus de trois ans, sans représentation légale ni procès équitable, théoriquement détenus pour toujours. Cette structure totalement illégitime est maintenue au mépris de la Convention de Genève. Non seulement on la tolère mais c’est à peine si la soi-disant « communauté internationale » en fait le moindre cas. Ce crime scandaleux est commis en ce moment même par un pays qui fait profession d’être « le leader du monde libre ». Est-ce que nous pensons aux locataires de Guantanamo ? Qu’en disent les médias ? Ils se réveillent de temps en temps pour nous pondre un petit article en page six. Ces hommes ont été relégués dans un no man’s land dont ils pourraient fort bien ne jamais revenir. À présent beaucoup d’entre euxfont la grève de la faim, ils sont nourris de force, y compris des résidents britanniques. Pas de raffinements dans ces méthodes d’alimentation forcée. Pas de sédatifs ni d’anesthésiques. Juste un tube qu’on vous enfonce dans le nez et qu’on vous fait descendre dans la gorge. Vous vomissez du sang. C’est de la torture. Qu’en a dit le ministre des Affaires étrangères britannique ? Rien. Qu’en a dit le Premier Ministre britannique ? Rien. Et pourquoi ? Parce que les États-Unis ont déclaré : critiquer notre conduite à Guantanamo constitue un acte hostile. Soit vous êtes avec nous, soit vous êtes contre nous. Résultat, Blair se tait.
L’invasion de l’Irak était un acte de banditisme, un acte de terrorisme d’État patenté, témoignant d’un absolu mépris pour la notion de droit international. Cette invasion était un engagement militaire arbitraire inspiré par une série de mensonges répétés sans fin et une manipulation flagrante des médias et, partant, du public ; une intervention visant à renforcer le contrôle militaire et économique de l’Amérique sur le Moyen-Orient et se faisant passer – en dernier ressort – toutes les autres justifications n’ayant pas réussi à prouver leur bien-fondé – pour une libération. Une red outable affirmation de la force militaire responsable de la mort et de la mutilation de milliers et de milliers d’innocents.
Nous avons apporté au peuple irakien la torture, les bombes à fragmentation, l’uranium appauvri, d’innombrables tueries commises au hasard, la misère, l’humiliation et la mort et nous appelons cela « apporter la liberté et la démocratie au Moyen-Orient ».
Combien de gens vous faut-il tuer avant d’avoir droit au titre de meurtrier de masse et de criminel de guerre ? Cent mille ? Plus qu’assez, serais-je tenté de croire. Il serait donc juste que Bush et Blair soient appelés à comparaître devant la Cour internationale de justice. Mais Bush a été malin. Il n’a pas ratifié la Cour internationale de justice. Donc, si un soldat américain ou, à plus forte raison, un homme politique américain, devait se retrouver au banc des accusés, Bush a prévenu qu’il enverrait les marines. Mais Tony Blair, lui, a ratifié la Cour et peut donc faire l’objet de poursuites.Nous pouvons communiquer son adresse à la Cour si ça l’intéresse. Il habite au 10 Downing Street, Londres.
La mort dans ce contexte devient tout à fait accessoire. Bush et Blair prennent tous deux bien soin de la mettre de côté. Au moins 100 000 Irakiens ont péri sous les bombes et les missiles américains avant que ne commence l’insurrection irakienne. Ces gens-là sont quantité négligeable. Leur mort n’existe pas. Un néant. Ils ne sont même pas recensés comme étant morts. « Nous ne comptons pas les cadavres » a déclaré le général américain Tommy Franks.
Aux premiers jours de l’invasion une photo a été publiée à la une des journaux britanniques ; on y voit Tony Blair embrassant sur la joue un petit garçon irakien. « Un enfant reconnaissant » disait la légende. Quelques jours plus tard on pouvait trouver, en pages intérieures, l’histoire et la photo d’un autre petit garçon de quatre ans qui n’avait plus de bras. Sa famille avait été pulvérisée par un missile. C’était le seul survivant. « Quand est-ce que je retrouverai mes bras ? » demandait-il. L’histoire est passée à la trappe. Eh bien oui, Tony Blair ne le serrait pas contre lui, pas plus qu’il ne serrait dans ses bras le corps d’un autre enfant mutilé, ou le corps d’un cadavre ensanglanté. Le sang, c’est sale. Ça salit votre chemise et votre cravate quand vous parlez avec sincérité devant les caméras de télévision.
Les 2000 morts américains sont embarrassants. On les transporte vers leurs tombes dans le noir. Les funérailles se font discrètement, en lieu sûr. Les mutilés pourrissent dans leurs lits, certains pour le restant de leurs jours. Ainsi les morts et les mutilés pourrissent-ils, dans différentes catégories de tombes.
Voici un extrait de « J’explique certaines choses », un poème de Pablo Neruda :
Et un matin tout était en feu,
et un matin les bûchers
sortaient de la terre
dévorant les êtres vivants,
et dès lors ce fut le feu,
ce fut la poudre,et ce fut le sang.
Des bandits avec des avions, avec des Maures,
des bandits avec des bagues et des duchesses,
des bandits avec des moines noirs pour bénir
tombaient du ciel pour tuer des enfants,
et à travers les rues le sang des enfants
coulait simplement, comme du sang d’enfants.
Chacals que le chacal repousserait,
pierres que le dur chardon mordrait en crachant,
vipères que les vipères détesteraient !
Face à vous j’ai vu le sang
de l’Espagne se lever
pour vous noyer dans une seule vague
d’orgueil et de couteaux !
Générauxde trahison :
regardez ma maison morte,
regardez l’Espagne brisée :
mais de chaque maison morte surgit un métal ardent
au lieu de fleurs,
mais de chaque brèche d’Espagne
surgit l’Espagne,
mais de chaque enfant mort surgit un fusil avec des yeux,
mais de chaque crime naissent des balles
qui trouveront un jour l’endroitde votre cœur.
Vous allez demander pourquoi sa poésie
ne parle-t-elle pas du rêve, des feuilles,
des grands volcans de son pays natal ?
Venez voir le sang dans les rues,
venez voirle sang dans les rues,
venez voirle sang dans les rues ! 2
Laissez-moi préciser qu’en citant ce poème de Neruda je ne suis en aucune façon en train de comparer l’Espagne républicaine à l’Irak de Saddam Hussein. Si je cite Neruda c’est parce que je n’ai jamais lu ailleurs dans la poésie contemporaine de description aussi puissante et viscérale d’un bombardement de civils.
J’ai dit tout à l’heure que les États-Unis étaient désormais d’une franchise totale et jouaient cartes sur table. C’est bien le cas. Leur politique officielle déclarée est désormais définie comme une « full spectrum dominance » (une domination totale sur tous les fronts). L’expression n’est pas de moi, elle est d’eux. « Full spectrum dominance », cela veut dire contrôle des terres, des mers, des airs et de l’espace et de toutes les ressources qui vont avec.
Les États-Unis occupent aujourd’hui 702 installations militaires dans 132 pays du monde entier, à l’honorable exception de la Suède, bien sûr. On ne sait pas trop comment ils en sont arrivés là, mais une chose est sûre, c’est qu’ils y sont.
Les États-Unis détiennent 8000 ogives nucléaires actives et opérationnelles. 2000 sont en état d’alerte maximale, prêtes à être lancées avec un délai d’avertissement de 15 minutes. Ils développent de nouveaux systèmes de force nucléaire, connus sous le nom de « bunker busters » (briseurs de blockhaus). Les Britanniques, toujours coopératifs, ont l’intention de remplacer leur missile nucléaire, le Trident. Qui, je me le demande, visent-ils ? Oussama Ben Laden ? Vous ? Moi ? Tartempion ? La Chine ? Paris ? Qui sait ? Ce que nous savons c’est que cette folie infantile – détenir des armes nucléaires et menacer de s’en servir – est au cœur de la philosophie politique américaine actuelle. Nous devons nous rappeler que les États-Unis sont en permanence sur le pied de guerre et ne laissent entrevoir en la matière aucun signe de détente.
Des milliers, sinon des millions, de gens aux États-Unis sont pleins de honte et de colère, visiblement écœurés par les actions de leur gouvernement, mais en l’état actuel des choses, ils ne constituent pas une force politique cohérente – pas encore. Cela dit, l’angoisse, l’incertitude et la peur que nous voyons grandir de jour en jour aux États-Unis ne sont pas près de s’atténuer.
Je sais que le Président Bush emploie déjà pour écrire ses discours de nombreuses personnes extrêmement compétentes, mais j’aimerais me porter volontaire pour le poste. Je propose la courte allocution suivante, qu’il pourrait faire à la télévision et adresser à la nation. Je l’imagine grave, les cheveux soigneusement peignés, sérieux, avenant, sincère, souvent enjôleur, y allant parfois d’un petit sourire forcé, curieusement séduisant, un homme plus à son aise avec les hommes.
« Dieu est bon. Dieu est grand. Dieu est bon. Mon Dieu est bon. Le Dieu de Ben Laden est mauvais. Le sien est un mauvais Dieu. Le Dieu de Saddam était mauvais, sauf que Saddam n’en avait pas. C’était un barbare. Nous ne sommes pas des barbares. Nous ne tranchons pas la tête des gens. Nous croyons à la liberté. Dieu aussi. Je ne suis pas un barbare. Je suis le leader démocratiquement élu d’une démocratie éprise de liberté. Nous sommes une société pleine de compassion. Nous administrons des électrocutions pleines de compassion et des injections létales pleines de compassion. Nous sommes une grande nation. Je ne suis pas un dictateur. Lui, oui. Je ne suis pas un barbare. Lui, oui. Et lui aussi. Ils le sont tous. Moi, je détiens l’autorité morale. Vous voyez ce poing ? C’est ça, mon autorité morale. Tâchez de ne pas l’oublier. »
La vie d’un écrivain est une activité infiniment vulnérable, presque nue. Inutile de pleurer là-dessus. L’écrivain fait un choix, un choix qui lui colle à la peau. Mais il est juste de dire que vous êtes exposé à tous les vents, dont certains sont glacés bien sûr. Vous œuvrez tout seul, isolé de tout. Vous ne trouvez aucun refuge, aucune protection – sauf si vous mentez – auquel cas bien sûr vous avez construit et assuré vous-même votre protection et, on pourrait vous le rétorquer, vous êtes devenu un homme politique.
J’ai parlé de la mort pas mal de fois ce soir.Je vais maintenant vous lire un de mes poèmes, intitulé « Mort ».
Où a-t-on trouvé le cadavre ?
Qui a trouvé le cadavre ?
Le cadavre était-il mort quand on l’a trouvé ?
Comment a-t-on trouvé le cadavre ?
Qui était le cadavre ?
Qui était le père ou la fille ou le frère
Ou l’oncle ou la sœur ou la mère ou le fils
Du cadavre abandonné ?
Le corps était-il mort quand on l’a abandonné ?
Le corps était-il abandonné ?
Par qui avait-il été abandonné ?
Le cadavre était-il nu ou en costume de voyage ?
Qu’est-ce qui a fait que ce cadavre, vous l’avez déclaré mort ?
Le cadavre, vous l’avez déclaré mort ?
Vous le connaissiez bien, le cadavre ?
Comment saviez-vous que le cadavre était mort ?
Avez-vous lavé le cadavre
Avez-vous fermé ses deux yeux
Avez-vous enterré le corps
L’avez-vous laissé à l’abandon
Avez-vous embrassé le cadavre
Quand nous nous regardons dans un miroir nous pensons que l’image qui nous fait face est fidèle. Mais bougez d’un millimètre et l’image change. Nous sommes en fait en train de regarder une gamme infinie de reflets.Mais un écrivain doit parfois fracasser le miroir – car c’est de l’autre côté de ce miroir que la vérité nous fixe des yeux.
Je crois que malgré les énormes obstacles qui existent, être intellectuellement résolus, avec une détermination farouche, stoïque et inébranlable, à définir, en tant que citoyens, la réelle vérité de nos vies et de nos sociétés est une obligation cruciale qui nous incombe à tous. Elle est même impérative.
Si une telle détermination ne s’incarne pas dans notre vision politique, nous n’avons aucun espoir de restaurer ce que nous sommes si près de perdre – notre dignité d’homme.
1. Harold Pinter : Le Retour. Traduction Éric Kahane. Gallimard, 1969.
2. Pablo Neruda : « J’explique certaines choses », dans Résidence sur la terre, III. Traduction Guy Suarès. Gallimard, 1972.
Traduction Séverine Magois
(Retirado daqui)
Sunday, December 11, 2005
Crónica de Uma Fidelidade (4)
O ano de 1976 inaugurou uma longa travessia do deserto. No final dessa caminhada, dez anos depois, em 1986, uma parte significativa daqueles que dirigiram o processo de criação e extinção do MES (Movimento de Esquerda Socialista), havia de aderir ao PS. Mas o período crucial, no qual amadureceu essa decisão, culminou, de facto, em 1979. Lá iremos mais tarde.
Em 1976 ocorreu uma fase crucial da consolidação do regime de democracia representativa em Portugal. Nele avultam três acontecimentos relevantes: a aprovação, em 2 de Abril de 1976, da Constituição Democrática, as primeiras eleições legislativas, em 25 de Abril e as primeiras eleições presidenciais, em 27 de Junho, nas quais seria eleito Ramalho Eanes.
Duas notas a propósito de cada um destes eventos. A primeira para assinalar que a maioria do eleitorado tinha, nas eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas a 25 de Abril de 1975, consagrado o PS como o Partido mais votado e arredado o MES da Assembleia Constituinte para a qual não conseguiu eleger qualquer deputado. Como consequência o MES não participou nos trabalhos de elaboração da Constituição da República de 1976.
Curiosamente a UDP, com menos votos que o MES, a nível nacional, elegeu um deputado, sendo beneficiada pela concentração da sua votação em Lisboa. Este resultado eleitoral negativo muito contribuiu para reforçar a convicção, entre muitos de nós, de que se aproximava o fim da experiência do MES.
A segunda nota para assinalar que, nas primeiras eleições legislativas, realizadas a 25 de Abril de 1976, o MES obteve um resultado ainda menos expressivo do que aquele que tinha obtido nas Eleições para a Assembleia Constituinte, voltando a não eleger qualquer deputado.
Por último o MES apoiou a candidatura presidencial do Otelo, facto inevitável e entusiasmante, que, apesar das circunstâncias adversas, permitiu reforçar a demarcação face ao PCP, no qual nunca nos tínhamos revisto e, apesar da derrota, alimentar, nalguns, atendendo à significativa votação obtida, (16,2%, correspondendo a 792.760 votos) a ideia de que seria ainda viável construir uma alternativa política ao PCP, fora da área da influência do PS.
Estes factos conjugados com a deriva esquerdista que persistia, desde os inícios de 1975, pretendendo iludir a realidade emergente do 25 de Novembro desse ano, das eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de Abril de 1975, da aprovação da Constituição e das eleições legislativas, um ano depois, conduziu ao atraso do processo de reflexão que conduziria à extinção do MES.
Esse atraso permitiu, no entanto, revelar alguns aspectos da postura política do MES, pouco conhecidos, mas relevantes para a vida futura daqueles que nele militavam.
A recusa, liminar, em participar em qualquer movimento de reacção violenta, orgânico ou inorgânico, à vitória do PS de Mário Soares nas eleições livres e democráticas – ou seja o estrito respeito pela vontade do povo expressa pelo voto e a recusa em integrar o PCP, fosse por via negocial ou por um processo de adesão a “conta gotas”.
O que quero enfatizar é a permanência, ao longo do tempo, no essencial, de uma fidelidade aos princípios fundadores do MES, mais próximos de uma ideologia libertária, que tinha perdido, em Portugal, qualquer expressão política organizada, e a recusa, ideológica e política, no alinhamento com facções de cariz totalitário, fundadas no marxismo leninismo que orientou a acção da maioria dos restantes grupos e partidos da chamada extrema esquerda.
A linguagem revolucionária no MES, indubitavelmente presente na maioria dos seus documentos e discursos políticos da época, que ganhou especial virulência no chamado “verão quente” de 1975, nunca deixou de ser um “pastiche”, ou seja, uma linguagem que se limitava a imitar a linguagem dominante da esquerda revolucionária da moda.
Assim se compreenderá melhor, quer a nula adesão, após a extinção do MES, dos seus membro ao PCP ou a partidos da extrema esquerda, que persistiram até aos nossos dias (plasmados no BE), quer a posterior adesão, de uma parte significativa dos seus dirigentes mais influentes, ao PS ou, na maior parte dos casos, a sua não afiliação em qualquer outro partido. As poucas excepções só confirmam a regra.
Talvez o tempo fale por si acerca do processo e do amadurecimento das nossas opções. No contexto fulminante, em que o tempo fugia debaixo dos nossos pés, o que é, aliás, uma característica destes períodos de revolução, conduzimos, com surpreendente lentidão, o processo de transição para o que muitos designam, pejorativamnete, como a social democracia mas que, de facto, foi o regresso ao lugar das nossas origens sociais e da essência das nossas mais profundas convicções ideológicas e políticas. Falo por mim e, certamente, vou ao encontro do que sentiram e pensaram muitos daqueles que partilharam, no essencial, o mesmo caminho com todas as diferenças pessoais que se possam encontrar.
Alguns outros foram mais expeditos em se filiarem no PS, tal como o grupo designado por GIS, encabeçado por Jorge Sampaio, que por razão de um mais precoce amadurecimento pessoal e esclarecimento ideológico, ou por necessidade de colocarem os seus méritos ao serviço da solução democrática vitoriosa ou, ainda, por vontade de protagonismo político, se afadigaram em buscar, rapidamente e em força, a bênção do PS, de Mário Soares.
A maioria daqueles que se mantiveram no MES, até ao fim, foram mais tardios na adesão ao PS, embora tenham, na prática, realizado o mesmo percurso.
É curioso, no entanto, que nenhum de nós tenha, até ao presente, encontrado no PS o remanso para a plena concretização das suas aspirações políticas. Alguns episódios recentes demonstram que, tendo mudado de natureza, não se apagaram as diferenças entre as diversas correntes do pensamento socialista, em particular, no que respeita à definição do papel do Partido Socialista na luta pela justiça, pela democracia e pela liberdade.
E que, ainda mais, se agudizam as diferenças quando se trata de configurar políticas concretas, avaliar comportamentos éticos ou encetar políticas de aprofundamento e consolidação do regime democrático. Mas esta é uma abordagem que se situa muito mais próxima dos acontecimentos que têm sido vividos, na política portuguesa, nos tempos mais próximos e que não vêm agora ao caso.
Não esqueço ainda aqueles que conheci no MES e que, até hoje, se têm mantido sempre à margem de qualquer compromisso partidário entre os quais se encontram alguns que nunca votaram, em qualquer eleição, desde 1976, e sempre se mostraram resistentes em aceitar as fórmulas políticas de compromisso que se encontram plasmadas nos diversos modelos da democracia representativa.
Devo dizer que nutro por eles a maior das admirações tanto mais que são os únicos que levaram até ao fim, de forma pacífica, o seu protesto pela morte de uma utopia que nos irmanou a todos num longo e intenso período das nossas vidas.
Resumindo: em 1976, na sequência da aprovação da Constituição, as eleições legislativas foram ganhas pelo PS, de Mário Soares, e as presidenciais foram vencidas pelo general Eanes, representando a solução política militar moderada para a crise.
O MES foi afastado do parlamento nas eleições legislativas de 25 de Abril, apoiou a candidatura presidencial de Otelo tendo rompido, de seguida, de forma radical, com qualquer devaneio de oposição violenta ao modelo político de democracia representativa em fase de consolidação.
Mário Soares tomou posse, em 23 de Setembro, como Primeiro-ministro à frente do I Governo Constitucional.
Amadureciam, assim, as condições para se tomasse a sério a ideia de por fim à experiência do MES o que requeria previamente concretizar, de forma explícita, uma ruptura política e ideológica com o passado. Foi o que aconteceu no decurso do ano de 1977.
Cronologia breve dos acontecimentos políticos relevantes do ano de 1976.
Em 1976 ocorreu uma fase crucial da consolidação do regime de democracia representativa em Portugal. Nele avultam três acontecimentos relevantes: a aprovação, em 2 de Abril de 1976, da Constituição Democrática, as primeiras eleições legislativas, em 25 de Abril e as primeiras eleições presidenciais, em 27 de Junho, nas quais seria eleito Ramalho Eanes.
Duas notas a propósito de cada um destes eventos. A primeira para assinalar que a maioria do eleitorado tinha, nas eleições para a Assembleia Constituinte, realizadas a 25 de Abril de 1975, consagrado o PS como o Partido mais votado e arredado o MES da Assembleia Constituinte para a qual não conseguiu eleger qualquer deputado. Como consequência o MES não participou nos trabalhos de elaboração da Constituição da República de 1976.
Curiosamente a UDP, com menos votos que o MES, a nível nacional, elegeu um deputado, sendo beneficiada pela concentração da sua votação em Lisboa. Este resultado eleitoral negativo muito contribuiu para reforçar a convicção, entre muitos de nós, de que se aproximava o fim da experiência do MES.
A segunda nota para assinalar que, nas primeiras eleições legislativas, realizadas a 25 de Abril de 1976, o MES obteve um resultado ainda menos expressivo do que aquele que tinha obtido nas Eleições para a Assembleia Constituinte, voltando a não eleger qualquer deputado.
Por último o MES apoiou a candidatura presidencial do Otelo, facto inevitável e entusiasmante, que, apesar das circunstâncias adversas, permitiu reforçar a demarcação face ao PCP, no qual nunca nos tínhamos revisto e, apesar da derrota, alimentar, nalguns, atendendo à significativa votação obtida, (16,2%, correspondendo a 792.760 votos) a ideia de que seria ainda viável construir uma alternativa política ao PCP, fora da área da influência do PS.
Estes factos conjugados com a deriva esquerdista que persistia, desde os inícios de 1975, pretendendo iludir a realidade emergente do 25 de Novembro desse ano, das eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de Abril de 1975, da aprovação da Constituição e das eleições legislativas, um ano depois, conduziu ao atraso do processo de reflexão que conduziria à extinção do MES.
Esse atraso permitiu, no entanto, revelar alguns aspectos da postura política do MES, pouco conhecidos, mas relevantes para a vida futura daqueles que nele militavam.
A recusa, liminar, em participar em qualquer movimento de reacção violenta, orgânico ou inorgânico, à vitória do PS de Mário Soares nas eleições livres e democráticas – ou seja o estrito respeito pela vontade do povo expressa pelo voto e a recusa em integrar o PCP, fosse por via negocial ou por um processo de adesão a “conta gotas”.
O que quero enfatizar é a permanência, ao longo do tempo, no essencial, de uma fidelidade aos princípios fundadores do MES, mais próximos de uma ideologia libertária, que tinha perdido, em Portugal, qualquer expressão política organizada, e a recusa, ideológica e política, no alinhamento com facções de cariz totalitário, fundadas no marxismo leninismo que orientou a acção da maioria dos restantes grupos e partidos da chamada extrema esquerda.
A linguagem revolucionária no MES, indubitavelmente presente na maioria dos seus documentos e discursos políticos da época, que ganhou especial virulência no chamado “verão quente” de 1975, nunca deixou de ser um “pastiche”, ou seja, uma linguagem que se limitava a imitar a linguagem dominante da esquerda revolucionária da moda.
Assim se compreenderá melhor, quer a nula adesão, após a extinção do MES, dos seus membro ao PCP ou a partidos da extrema esquerda, que persistiram até aos nossos dias (plasmados no BE), quer a posterior adesão, de uma parte significativa dos seus dirigentes mais influentes, ao PS ou, na maior parte dos casos, a sua não afiliação em qualquer outro partido. As poucas excepções só confirmam a regra.
Talvez o tempo fale por si acerca do processo e do amadurecimento das nossas opções. No contexto fulminante, em que o tempo fugia debaixo dos nossos pés, o que é, aliás, uma característica destes períodos de revolução, conduzimos, com surpreendente lentidão, o processo de transição para o que muitos designam, pejorativamnete, como a social democracia mas que, de facto, foi o regresso ao lugar das nossas origens sociais e da essência das nossas mais profundas convicções ideológicas e políticas. Falo por mim e, certamente, vou ao encontro do que sentiram e pensaram muitos daqueles que partilharam, no essencial, o mesmo caminho com todas as diferenças pessoais que se possam encontrar.
Alguns outros foram mais expeditos em se filiarem no PS, tal como o grupo designado por GIS, encabeçado por Jorge Sampaio, que por razão de um mais precoce amadurecimento pessoal e esclarecimento ideológico, ou por necessidade de colocarem os seus méritos ao serviço da solução democrática vitoriosa ou, ainda, por vontade de protagonismo político, se afadigaram em buscar, rapidamente e em força, a bênção do PS, de Mário Soares.
A maioria daqueles que se mantiveram no MES, até ao fim, foram mais tardios na adesão ao PS, embora tenham, na prática, realizado o mesmo percurso.
É curioso, no entanto, que nenhum de nós tenha, até ao presente, encontrado no PS o remanso para a plena concretização das suas aspirações políticas. Alguns episódios recentes demonstram que, tendo mudado de natureza, não se apagaram as diferenças entre as diversas correntes do pensamento socialista, em particular, no que respeita à definição do papel do Partido Socialista na luta pela justiça, pela democracia e pela liberdade.
E que, ainda mais, se agudizam as diferenças quando se trata de configurar políticas concretas, avaliar comportamentos éticos ou encetar políticas de aprofundamento e consolidação do regime democrático. Mas esta é uma abordagem que se situa muito mais próxima dos acontecimentos que têm sido vividos, na política portuguesa, nos tempos mais próximos e que não vêm agora ao caso.
Não esqueço ainda aqueles que conheci no MES e que, até hoje, se têm mantido sempre à margem de qualquer compromisso partidário entre os quais se encontram alguns que nunca votaram, em qualquer eleição, desde 1976, e sempre se mostraram resistentes em aceitar as fórmulas políticas de compromisso que se encontram plasmadas nos diversos modelos da democracia representativa.
Devo dizer que nutro por eles a maior das admirações tanto mais que são os únicos que levaram até ao fim, de forma pacífica, o seu protesto pela morte de uma utopia que nos irmanou a todos num longo e intenso período das nossas vidas.
Resumindo: em 1976, na sequência da aprovação da Constituição, as eleições legislativas foram ganhas pelo PS, de Mário Soares, e as presidenciais foram vencidas pelo general Eanes, representando a solução política militar moderada para a crise.
O MES foi afastado do parlamento nas eleições legislativas de 25 de Abril, apoiou a candidatura presidencial de Otelo tendo rompido, de seguida, de forma radical, com qualquer devaneio de oposição violenta ao modelo político de democracia representativa em fase de consolidação.
Mário Soares tomou posse, em 23 de Setembro, como Primeiro-ministro à frente do I Governo Constitucional.
Amadureciam, assim, as condições para se tomasse a sério a ideia de por fim à experiência do MES o que requeria previamente concretizar, de forma explícita, uma ruptura política e ideológica com o passado. Foi o que aconteceu no decurso do ano de 1977.
Cronologia breve dos acontecimentos políticos relevantes do ano de 1976.
Thursday, December 08, 2005
JOHN LENNON
MÁRIO LOPES - "PUBLICO" - 8 DE DEZEMBRO DE 2005
Ex-Beatle foi assassinado há 25 anos - Vinte e cinco anos depois, quem é John Lennon? A imagem que dele se guarda é a do activista cantando. Imagine ao piano. A música que dele se ouve é a criada com os Beatles.
John Lennon é hoje, felizmente, um mito paradoxal
Uma voz na cabeça de Mark Chapman impelia-o a não ter contemplações. Falhara umas horas antes, quando pediu a Lennon que lhe autografasse Double Fantasy. Não podia falhar agora, quando o ex-Beatle por ele passava à entrada do Dakota Building, em Nova Iorque, de regresso a casa depois de uma rotineira sessão de gravação. Cinco tiros e cumpria o que as vozes lhe exigiam: matar o mito a que moldou a sua vida e que havia descoberto ser, afinal, um embuste.
Tragicamente, os tiros de Mark Chapman foram certeiros - ainda assim, falhou o alvo. Matou o homem, assinalou o nascimento definitivo do mito. A 8 de Dezembro de 1980, morreu o Beatle genial com uma errática carreira a solo, nasceu o Lennon que se implantou no imaginário comum sentado ao piano branco de Imagine.
Vinte e cinco anos depois da sua morte, quem é John Lennon? Muitas coisas, tal como o foi em vida. O activista liderando manifestações nas ruas enquanto declarava que "a propriedade não são nove décimos da lei, são nove décimos do problema", o vanguardista psicadélico criando obras-primas como A day in the life ou Tomorrow never knows e justificando-as resgatando o surrealismo como influência ("com ele percebi que as imagens na minha cabeça não eram sinal de insanidade"), o iconoclasta provocando um auto-de-fé contra os Beatles ("neste momento somos mais populares que Jesus; não sei quem desaparecerá primeiro, o rock"n"roll ou o cristianismo") ou o introspectivo dos primeiros anos a solo, utilizando a música como terapia para se libertar dos seus demónios interiores ("I don"t believe in Beatles/ Just believe in me/ Yoko and me", cantou em God).
Uma personalidade contraditória
Lennon foi e continua a ser tudo isso: um músico inigualável e uma personalidade fascinante e contraditória, como obrigatório em alguém que, como poucos outros, foi reflexo e impulsionador de uma época de profundas e convulsivas revoluções sociais e culturais. Claro que o processo de mitificação, coisa perversa por natureza, tudo simplifica e suaviza na criação de uma imagem apreendida por todos como unívoca. Exemplos disso mesmo não faltam - e não precisamos de sair do universo da pop.
Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain ou Bob Marley, tudo nomes que, pelo cenário da morte, viram a sua vida e obra reduzidas no imaginário colectivo a uma série de clichés que, sendo verdadeiros, são também extremamente redutores. Dir-se-ia que com Lennon, cujo legado e imagem vem sendo perpetuado à imagem de Yoko Ono, se passa o mesmo. Contudo, há neste caso um pequeno grande pormenor que tudo altera. John Lennon foi vocalista, guitarrista e um dos principais compositores da mais importante banda de todos os tempos, os Beatles, e isso, obviamente, faz toda a diferença.
O Lennon a que todos recorrem quando o seu nome é evocado é o do activista pela paz, o de Imagine e de Give Peace A Chance, o homem de barbas e cabelo longo passando mensagens ao mundo, com Yoko, na cama de um hotel em Montreal. A música de John Lennon que ouvimos, por sua vez, é a criada com Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr - como o comprovam as vendas residuais das reedições e compilações da sua obra a solo, em contraste com as quantidades impressionantes de CD dos Beatles que continuam diariamente a voar das lojas.
Vinte e cinco anos depois da sua morte, Lennon é um mito paradoxal que, pela riqueza da sua obra e pela peculiaridade do seu percurso, escapa à unidimensionalidade. Ainda bem que assim é. O homem que certo dia afirmou "uma parte de mim suspeita que sou um falhado, a outra acha que sou Deus todo-poderoso", decerto apreciaria não ser engavetado em local seguro e imutável.
Ex-Beatle foi assassinado há 25 anos - Vinte e cinco anos depois, quem é John Lennon? A imagem que dele se guarda é a do activista cantando. Imagine ao piano. A música que dele se ouve é a criada com os Beatles.
John Lennon é hoje, felizmente, um mito paradoxal
Uma voz na cabeça de Mark Chapman impelia-o a não ter contemplações. Falhara umas horas antes, quando pediu a Lennon que lhe autografasse Double Fantasy. Não podia falhar agora, quando o ex-Beatle por ele passava à entrada do Dakota Building, em Nova Iorque, de regresso a casa depois de uma rotineira sessão de gravação. Cinco tiros e cumpria o que as vozes lhe exigiam: matar o mito a que moldou a sua vida e que havia descoberto ser, afinal, um embuste.
Tragicamente, os tiros de Mark Chapman foram certeiros - ainda assim, falhou o alvo. Matou o homem, assinalou o nascimento definitivo do mito. A 8 de Dezembro de 1980, morreu o Beatle genial com uma errática carreira a solo, nasceu o Lennon que se implantou no imaginário comum sentado ao piano branco de Imagine.
Vinte e cinco anos depois da sua morte, quem é John Lennon? Muitas coisas, tal como o foi em vida. O activista liderando manifestações nas ruas enquanto declarava que "a propriedade não são nove décimos da lei, são nove décimos do problema", o vanguardista psicadélico criando obras-primas como A day in the life ou Tomorrow never knows e justificando-as resgatando o surrealismo como influência ("com ele percebi que as imagens na minha cabeça não eram sinal de insanidade"), o iconoclasta provocando um auto-de-fé contra os Beatles ("neste momento somos mais populares que Jesus; não sei quem desaparecerá primeiro, o rock"n"roll ou o cristianismo") ou o introspectivo dos primeiros anos a solo, utilizando a música como terapia para se libertar dos seus demónios interiores ("I don"t believe in Beatles/ Just believe in me/ Yoko and me", cantou em God).
Uma personalidade contraditória
Lennon foi e continua a ser tudo isso: um músico inigualável e uma personalidade fascinante e contraditória, como obrigatório em alguém que, como poucos outros, foi reflexo e impulsionador de uma época de profundas e convulsivas revoluções sociais e culturais. Claro que o processo de mitificação, coisa perversa por natureza, tudo simplifica e suaviza na criação de uma imagem apreendida por todos como unívoca. Exemplos disso mesmo não faltam - e não precisamos de sair do universo da pop.
Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain ou Bob Marley, tudo nomes que, pelo cenário da morte, viram a sua vida e obra reduzidas no imaginário colectivo a uma série de clichés que, sendo verdadeiros, são também extremamente redutores. Dir-se-ia que com Lennon, cujo legado e imagem vem sendo perpetuado à imagem de Yoko Ono, se passa o mesmo. Contudo, há neste caso um pequeno grande pormenor que tudo altera. John Lennon foi vocalista, guitarrista e um dos principais compositores da mais importante banda de todos os tempos, os Beatles, e isso, obviamente, faz toda a diferença.
O Lennon a que todos recorrem quando o seu nome é evocado é o do activista pela paz, o de Imagine e de Give Peace A Chance, o homem de barbas e cabelo longo passando mensagens ao mundo, com Yoko, na cama de um hotel em Montreal. A música de John Lennon que ouvimos, por sua vez, é a criada com Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr - como o comprovam as vendas residuais das reedições e compilações da sua obra a solo, em contraste com as quantidades impressionantes de CD dos Beatles que continuam diariamente a voar das lojas.
Vinte e cinco anos depois da sua morte, Lennon é um mito paradoxal que, pela riqueza da sua obra e pela peculiaridade do seu percurso, escapa à unidimensionalidade. Ainda bem que assim é. O homem que certo dia afirmou "uma parte de mim suspeita que sou um falhado, a outra acha que sou Deus todo-poderoso", decerto apreciaria não ser engavetado em local seguro e imutável.
Monday, December 05, 2005
Crónica de Uma Fidelidade (3)
Em Portugal, 1975 foi, no plano político, o ano de todos os desassossegos, de todas as expectativas, ilusões e desilusões. Os acontecimentos mais relevantes têm sido relatados abundantemente em trabalhos, depoimentos e tomadas de posição das mais variadas naturezas.
Todos, e cada um dos protagonistas, têm as suas histórias para contar mas o essencial é do conhecimento comum.
Após o 25 de Abril de 1974 os campos extremaram-se. Ao longo dos meses, desse ano memorável, sucederam-se os golpes e os contra golpes. O poder militar dividiu-se entre os que advogavam uma transição pacífica para um regime de democracia representativa e aqueles que acreditavam na viabilidade de um “poder popular”, regime fundado num misto da tradição militarista e do anarquismo que tinham, décadas atrás, feito história em Portugal.
Já descrevi, anteriormente, como o MES perdeu, no seu Congresso fundador, em Dezembro de 1974, a oportunidade de enveredar por uma orientação que o teria levado a alinhar, desde logo, muito provavelmente, com o PS.
O I Congresso do PS, na legalidade, correu dias depois e soube, há pouco tempo, pela boca de Manuel Serra, que a “entrada” do MES no PS chegou a ser discutida entre dirigentes do MES, quais não sei, e ele próprio, enquanto dirigente máximo da FSP.
Nada seria mais difícil e doloroso para a maioria dos jovens, que tinham aderido ao MES, entre os quais me encontrava, viabilizar essa solução, atendendo à própria natureza do MES assente em três correntes, emergentes de pujantes e radicais lutas de base, as correntes católica, operária e estudantil.
Durante 11 meses, de Dezembro de 1974 até Novembro de 1975, vivemos entre a espada de um movimento popular radicalizado, nos limites do tolerável por uma sociedade organizada e de matriz conservadora, e a parede da abdicação face a um compromisso revolucionário que muitos de nós, ao longo dos meses, fomos sentindo, de facto, inviável.
Uns mais cedo do que outros fomos levados a admitir que chegaria o momento de um ajuste de contas, que poderia ser sangrento, caso se não desse o milagre de uma qualquer interposição moderadora do conflito que crescia e transbordava, em particular, no seio das forças armadas.
Chagados aos finais de Novembro de 1975, passaram agora 30 anos, tudo se resolveu pela vitória das forças que defendiam o modelo político da democracia representativa. Honra seja feita aos papéis desempenhados por Melo Antunes e Mário Soares. Um fazendo vencer as teses moderadas nas Forças Armadas e o outro liderando o movimento civil que havia de criar uma força, de que o PS foi a coluna vertebral, capaz de vencer e convencer a maioria em favor do modelo democrático.
Na madrugada de 25 de Novembro de 1975, algures num apartamento na cidade de Lisboa, acompanhado de outros activistas, antevi a viragem que, certamente, havia de ter contado com a própria mudança de posição política do PCP.
Lembro-me de em determinado momento dessa madrugada de 25 de Novembro ter decidido sair do apartamento, no qual me tinha recolhido, vencido mas não convencido, ter rumado a casa, atravessando a cidade de ponta a ponta, de carro, apesar do estado de sítio que tinha sido, ou estava para ser decretado, com uma profunda angústia cravada no peito, fazendo todo o percurso sem ser incomodado por ninguém.
Dormi como um justo. Nessa noite tinha tomado a consciência difusa de que tudo o que pudesse fazer, daí em diante, seria somente um caminho para salvar as aparências de uma escolha passada sem aderência aos sentimentos e expectativas da maioria do povo português.
O vencedor havia sido o PS e o obreiro dessa vitória política da democracia representativa, em Portugal, foi Mário Soares. Como tenho dito sempre, não me arrependo das ideias, nem das acções que empreendi e nas quais participei, mas reconheço que a razão estava do outro lado.
Aliás ainda durante o ano de 1977, como relatarei mais tarde, contribuí, de forma explícita e documentada, no seio do MES, para fazer triunfar a tese de que a democracia representativa iria triunfar e consolidar-se em Portugal.
Todos, e cada um dos protagonistas, têm as suas histórias para contar mas o essencial é do conhecimento comum.
Após o 25 de Abril de 1974 os campos extremaram-se. Ao longo dos meses, desse ano memorável, sucederam-se os golpes e os contra golpes. O poder militar dividiu-se entre os que advogavam uma transição pacífica para um regime de democracia representativa e aqueles que acreditavam na viabilidade de um “poder popular”, regime fundado num misto da tradição militarista e do anarquismo que tinham, décadas atrás, feito história em Portugal.
Já descrevi, anteriormente, como o MES perdeu, no seu Congresso fundador, em Dezembro de 1974, a oportunidade de enveredar por uma orientação que o teria levado a alinhar, desde logo, muito provavelmente, com o PS.
O I Congresso do PS, na legalidade, correu dias depois e soube, há pouco tempo, pela boca de Manuel Serra, que a “entrada” do MES no PS chegou a ser discutida entre dirigentes do MES, quais não sei, e ele próprio, enquanto dirigente máximo da FSP.
Nada seria mais difícil e doloroso para a maioria dos jovens, que tinham aderido ao MES, entre os quais me encontrava, viabilizar essa solução, atendendo à própria natureza do MES assente em três correntes, emergentes de pujantes e radicais lutas de base, as correntes católica, operária e estudantil.
Durante 11 meses, de Dezembro de 1974 até Novembro de 1975, vivemos entre a espada de um movimento popular radicalizado, nos limites do tolerável por uma sociedade organizada e de matriz conservadora, e a parede da abdicação face a um compromisso revolucionário que muitos de nós, ao longo dos meses, fomos sentindo, de facto, inviável.
Uns mais cedo do que outros fomos levados a admitir que chegaria o momento de um ajuste de contas, que poderia ser sangrento, caso se não desse o milagre de uma qualquer interposição moderadora do conflito que crescia e transbordava, em particular, no seio das forças armadas.
Chagados aos finais de Novembro de 1975, passaram agora 30 anos, tudo se resolveu pela vitória das forças que defendiam o modelo político da democracia representativa. Honra seja feita aos papéis desempenhados por Melo Antunes e Mário Soares. Um fazendo vencer as teses moderadas nas Forças Armadas e o outro liderando o movimento civil que havia de criar uma força, de que o PS foi a coluna vertebral, capaz de vencer e convencer a maioria em favor do modelo democrático.
Na madrugada de 25 de Novembro de 1975, algures num apartamento na cidade de Lisboa, acompanhado de outros activistas, antevi a viragem que, certamente, havia de ter contado com a própria mudança de posição política do PCP.
Lembro-me de em determinado momento dessa madrugada de 25 de Novembro ter decidido sair do apartamento, no qual me tinha recolhido, vencido mas não convencido, ter rumado a casa, atravessando a cidade de ponta a ponta, de carro, apesar do estado de sítio que tinha sido, ou estava para ser decretado, com uma profunda angústia cravada no peito, fazendo todo o percurso sem ser incomodado por ninguém.
Dormi como um justo. Nessa noite tinha tomado a consciência difusa de que tudo o que pudesse fazer, daí em diante, seria somente um caminho para salvar as aparências de uma escolha passada sem aderência aos sentimentos e expectativas da maioria do povo português.
O vencedor havia sido o PS e o obreiro dessa vitória política da democracia representativa, em Portugal, foi Mário Soares. Como tenho dito sempre, não me arrependo das ideias, nem das acções que empreendi e nas quais participei, mas reconheço que a razão estava do outro lado.
Aliás ainda durante o ano de 1977, como relatarei mais tarde, contribuí, de forma explícita e documentada, no seio do MES, para fazer triunfar a tese de que a democracia representativa iria triunfar e consolidar-se em Portugal.
Saturday, December 03, 2005
O MEU TIO VENTURA
“Miséria deste século. Ainda não há muito tempo eram as más acções que precisavam de ser justificadas, hoje são as boas.”
Albert Camus
Neste mês de Dezembro cumpre-se o terceiro aniversário de um conjunto de acontecimentos da maior gravidade para a democracia portuguesa. Com o governo de Durão Barroso, há poucos meses no exercício de funções, o discurso da “pesada herança” tornou-se uma âncora da acção governativa.
A sociedade portuguesa entrou, de forma vertiginosa, num ambiente de descrença e a economia precipitou-se no abismo da recessão. A imagem internacional do país caiu a pique, as opções políticas reformistas, (”reformas estruturais”, contenção da despesa pública, …) nunca foram convincentes e um conjunto de “casos de justiça” agravaram brutalmente o desânimo nacional.
Sabemos, hoje, por comparação com a política do governo socialista, actualmente em funções, que, afinal, os governos de direita, entre Março de 2002 e Fevereiro de 2005, nunca ambicionaram mais do que realizar uma cosmética de acção reformista tendo em vista facilitar operações de “engenharia sortida” favorecendo a chamada direita dos interesses.
Entretanto, como que por acaso, a direcção política do PS foi decapitada, através do processo “Casa Pia”, tendo sido lançados na lama a honorabilidade pessoal e política dos seus dirigentes de topo, Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso.
O país tem vindo a aprender, desde o início de 2002, com o sacrifício de inúmeras vítimas inocentes, que o exercício do poder, para alguns, não incorpora uma verdadeira defesa do interesse público mas, pelo contrário, o favorecimento de inconfessáveis interesses particulares ou de grupo.
Não falo em nomes de pessoas, nem de partidos, nem de instituições, pois mais parece estarmos perante um “polvo” cujos tentáculos se estendem em todas as direcções. Só assim se explicam as contínuas, sistemáticas e cirúrgicas fugas de informação, com quebra do segredo de justiça, os julgamentos políticos na praça pública, os erros grosseiros na condução de processos, envolvendo a honra e a vida de cidadãos presumivelmente inocentes, e o seráfico comprazimento dos responsáveis perante os efeitos da usura do tempo na descoberta da verdade, contribuindo para o desprestígio e enfraquecimento do regime democrático.
Foi em Dezembro de 2002 que também foram divulgadas notícias - uma das quais fazendo manchete no DN - lançando suspeitas acerca da minha própria honorabilidade pessoal e profissional, na gestão do INATEL, assim como de outros responsáveis que comigo partilharam aquele desafio. Aguardo, pacientemente, três anos passados, o esclarecimento da verdade, nas suas sedes próprias.
Entretanto, atendendo à época, aqui vos deixo uma reflexão, em jeito de metáfora, que escrevi a propósito das últimas autárquicas, mas que se aplica, na perfeição, às próximas eleições presidenciais.
“O meu tio Ventura, noutros tempos, foi regedor. Lembro-me de discutir política com ele. No tempo da ditadura. As minhas ideias deviam soar-lhe a utopias sem raízes na terra seca que cultivava. As dele soavam-me ao velho mundo que, para mim, estava para sucumbir. Não sabia a data, nem o modo, mas estava para acabar. Eu, na verdade, não sabia nada da vida. Mas tinha convicções fortes e ele gostava de me ouvir. Eu, pelo meu lado, gostava de o ouvir falar.
Mesmo hoje, nos seus mais de 90 anos, gosto do seu discurso enérgico. Com ele compreendi que somos, sempre, ao mesmo tempo, derrotados e vencedores. Nunca definitivamente derrotados, nem nunca definitivamente vencedores. Aprendi que é possível um radicalismo tolerante. Ou uma tolerância radical. Ser-mos absolutamente contra, aceitando as diferenças. Exigir aos outros que nos aceitem e exigir, a nós próprios, a aceitação dos outros. Sempre, toda a vida, sem quebras nem desfalecimentos.
Por isso compreendo que, nas eleições democráticas, todos os concorrentes se declarem vencedores mesmo que tenham sido vencidos. Todos compreendemos que é um jogo. Com ele os homens evitam digladiar-se através da violência física. As eleições democráticas são um ritual de tolerância mesmo quando as vozes se elevam mais alto e estalam as recriminações.
Mesmo quando são eleitos aqueles que julgamos desmerecer do voto popular. Mesmo depois de ter votado tanta vez sinto orgulho na democracia portuguesa e um prazer especial no acto de votar.
Sinto-me constrangido ao ler tanta abjecção intelectual, tanta intolerância, face às imperfeições do homem - candidatos e eleitores - que se revelam, abertamente, na disputa democrática. Os críticos, descrentes, abstinentes, ausentes e presentes não se observam a si próprios?
Eu sempre votei como se fosse colocar uma flor aos pés de um corpo perfeito de mulher.”
(A imagem de mulher, Fotografia de Bogdan Jarocki, pode ser encontrada no meu blogue pessoal www.absorto.blogspot.com)
Artigo publicado na edição de 2 de Dezembro de 2006 do "Semanário Económico".
Albert Camus
Neste mês de Dezembro cumpre-se o terceiro aniversário de um conjunto de acontecimentos da maior gravidade para a democracia portuguesa. Com o governo de Durão Barroso, há poucos meses no exercício de funções, o discurso da “pesada herança” tornou-se uma âncora da acção governativa.
A sociedade portuguesa entrou, de forma vertiginosa, num ambiente de descrença e a economia precipitou-se no abismo da recessão. A imagem internacional do país caiu a pique, as opções políticas reformistas, (”reformas estruturais”, contenção da despesa pública, …) nunca foram convincentes e um conjunto de “casos de justiça” agravaram brutalmente o desânimo nacional.
Sabemos, hoje, por comparação com a política do governo socialista, actualmente em funções, que, afinal, os governos de direita, entre Março de 2002 e Fevereiro de 2005, nunca ambicionaram mais do que realizar uma cosmética de acção reformista tendo em vista facilitar operações de “engenharia sortida” favorecendo a chamada direita dos interesses.
Entretanto, como que por acaso, a direcção política do PS foi decapitada, através do processo “Casa Pia”, tendo sido lançados na lama a honorabilidade pessoal e política dos seus dirigentes de topo, Ferro Rodrigues e Paulo Pedroso.
O país tem vindo a aprender, desde o início de 2002, com o sacrifício de inúmeras vítimas inocentes, que o exercício do poder, para alguns, não incorpora uma verdadeira defesa do interesse público mas, pelo contrário, o favorecimento de inconfessáveis interesses particulares ou de grupo.
Não falo em nomes de pessoas, nem de partidos, nem de instituições, pois mais parece estarmos perante um “polvo” cujos tentáculos se estendem em todas as direcções. Só assim se explicam as contínuas, sistemáticas e cirúrgicas fugas de informação, com quebra do segredo de justiça, os julgamentos políticos na praça pública, os erros grosseiros na condução de processos, envolvendo a honra e a vida de cidadãos presumivelmente inocentes, e o seráfico comprazimento dos responsáveis perante os efeitos da usura do tempo na descoberta da verdade, contribuindo para o desprestígio e enfraquecimento do regime democrático.
Foi em Dezembro de 2002 que também foram divulgadas notícias - uma das quais fazendo manchete no DN - lançando suspeitas acerca da minha própria honorabilidade pessoal e profissional, na gestão do INATEL, assim como de outros responsáveis que comigo partilharam aquele desafio. Aguardo, pacientemente, três anos passados, o esclarecimento da verdade, nas suas sedes próprias.
Entretanto, atendendo à época, aqui vos deixo uma reflexão, em jeito de metáfora, que escrevi a propósito das últimas autárquicas, mas que se aplica, na perfeição, às próximas eleições presidenciais.
“O meu tio Ventura, noutros tempos, foi regedor. Lembro-me de discutir política com ele. No tempo da ditadura. As minhas ideias deviam soar-lhe a utopias sem raízes na terra seca que cultivava. As dele soavam-me ao velho mundo que, para mim, estava para sucumbir. Não sabia a data, nem o modo, mas estava para acabar. Eu, na verdade, não sabia nada da vida. Mas tinha convicções fortes e ele gostava de me ouvir. Eu, pelo meu lado, gostava de o ouvir falar.
Mesmo hoje, nos seus mais de 90 anos, gosto do seu discurso enérgico. Com ele compreendi que somos, sempre, ao mesmo tempo, derrotados e vencedores. Nunca definitivamente derrotados, nem nunca definitivamente vencedores. Aprendi que é possível um radicalismo tolerante. Ou uma tolerância radical. Ser-mos absolutamente contra, aceitando as diferenças. Exigir aos outros que nos aceitem e exigir, a nós próprios, a aceitação dos outros. Sempre, toda a vida, sem quebras nem desfalecimentos.
Por isso compreendo que, nas eleições democráticas, todos os concorrentes se declarem vencedores mesmo que tenham sido vencidos. Todos compreendemos que é um jogo. Com ele os homens evitam digladiar-se através da violência física. As eleições democráticas são um ritual de tolerância mesmo quando as vozes se elevam mais alto e estalam as recriminações.
Mesmo quando são eleitos aqueles que julgamos desmerecer do voto popular. Mesmo depois de ter votado tanta vez sinto orgulho na democracia portuguesa e um prazer especial no acto de votar.
Sinto-me constrangido ao ler tanta abjecção intelectual, tanta intolerância, face às imperfeições do homem - candidatos e eleitores - que se revelam, abertamente, na disputa democrática. Os críticos, descrentes, abstinentes, ausentes e presentes não se observam a si próprios?
Eu sempre votei como se fosse colocar uma flor aos pés de um corpo perfeito de mulher.”
(A imagem de mulher, Fotografia de Bogdan Jarocki, pode ser encontrada no meu blogue pessoal www.absorto.blogspot.com)
Artigo publicado na edição de 2 de Dezembro de 2006 do "Semanário Económico".
Friday, November 04, 2005
SCARLETT JOHANSSON
Ora vejam esta matéria na edição de hoje, 4 de Novembro de 2005, do "El País" para que se entenda a projecção mediática de uma vedeta, ainda em princípio de carreira, e cuja imagem suscita a maior atracção e interesse de todos os meios.
"Scarlett Johansson, atrapada por Woody Allen - La protagonista de 'Match point' participa también en el siguiente proyecto del director neoyorquino
BARBARA CELIS - Nueva York
VÍDEO Trailer de 'Match Point' 03-11-2005
"Me considero una persona muy afortunada por vivir de lo que más amo"
Woody Allen se fijó en ella y cuando el célebre director neoyorquino propone matrimonio a una actriz, la respuesta suele ser un "sí, quiero". En el caso de Scarlett Johansson le bastó con escuchar el nombre del director para embarcarse en el rodaje de Match point, película que hoy se estrena en España. El inesperado no de Kate Winslet fue lo que la situó en el punto de mira de Allen. Johansson no lo dudó. "La propuesta era todo o nada. Me llegó el guión cuando sólo faltaba una semana para comenzar a filmar con una nota muy cariñosa en la que se me invitaba a saltar a bordo", recordaba la actriz, a punto de cumplir 21 años, durante un reciente encuentro con la prensa en Nueva York. "Woody me decía en la nota: 'Si no puedes estoy seguro de que trabajaremos juntos en otra ocasión". Mi reacción inmediata fue pensar que no me hacía falta ni leer el guión. He sido fan de Woody Allen desde que tengo 10 años", explicaba Scarlett, que ha devorado películas como espectadora desde niña y que debutó como actriz en la producción teatral alternativa Sophistry junto al actor Ethan Hawke.
En Match point, Johansson interpreta a Nola Rice, una aspirante a actriz que se embarca en una relación adúltera con Chris Wilson, un inquietante personaje al que da vida el joven Jonathan Rhys-Meyers, en un thriller de sorprendente final situado en Londres y que fue abiertamente celebrado por la crítica durante su presentación en el pasado Festival de Cannes. El papel que juegan el destino y la suerte en la existencia humana es uno de los temas sobre los que reflexiona la película.
Scarlett, menuda, de curvas pronunciadas y piel finísima, cuya fulgurante carrera incluye 23 películas y dos nominaciones a los Globos de Oro por las oscarizadas Lost in translation y La chica de la perla, es exactamente la antítesis de la actriz a la que interpreta en el filme, cuya vida profesional en la ficción parece abocada al fracaso. "Nunca me he planteado qué podría haber ocurrido sí me hubiera ido tan mal como a Nola. Siempre tuve claro que sólo quería hacer esto. Supongo que me considero una persona muy afortunada por vivir de lo que más amo y de que la gente vaya a ver mis películas, aunque soy consciente de que los actores somos prescindibles y todo puede cambiar. Pero no sabría qué hacer si de repente perdiera mi suerte. Creo que simplemente no lo pienso porque estoy muy ocupada decidiendo cuál va a ser mi próximo proyecto", afirma Johansson.
A los tres años, decidió ser actriz y a los siete, tras una crisis después de una prueba para un anuncio, ella y su madre decidieron que sólo aspiraría a películas de calidad. Con ocho años Johansson entró en la escuela de interpretación de Lee Strasberg y tras su debut en Broadway, a los nueve años, comenzó un lento pero sólido camino ascendente lleno de acertadas elecciones, entre ellas Manny and Lo, Ghost world, The man who wasn't there o El hombre que susurraba a los caballos, que la situó frente a Robert Redford en su doble condición de actor y realizador siendo sólo una adolescente.
Hace casi tres años, cuando Johansson aún no había estrenado Lost in translation y La chica de la perla, las dos películas que le dieron el reconocimiento definitivo de la industria, la revista Variety predijo que la joven era una de las grandes promesas de Hollywood. Pocos meses más tarde, sus predicciones se confirmaban. El aire sexy, los labios carnosos y la mirada inquieta de Scarlett comenzaron a acaparar portadas de revistas mientras los premios se sucedían. Ahora su nombre y su rostro son tan populares que la actriz neoyorquina se ha convertido en víctima predilecta de los paparazzi. "Me aburren, son un incordio. Pero supongo que es lo que tiene la fama. Después de Lost in translation mi vida ha cambiado, de eso no hay duda. Pasas de ser alguien anónimo a ser perseguido por los fotógrafos. Aunque también me ha permitido tener un abanico mucho más amplio sobre el que poder elegir. Y también, trabajar con Woody", declara esta actriz, cuyo matrimonio profesional con el neoyorquino ha funcionado tan bien que repite con Allen en su siguiente proyecto: The untitled Woody Allen Fall Project 2006.
"Esta vez se trata de una comedia y el rodaje ha sido un poco diferente porque Woody dirige y también actúa, que es algo que yo sólo había experimentado con Robert Redford", explica Johansson, quien afirma que Woody Allen "ya es un amigo para el que trabajaré siempre que me lo pida". La película, en la que además actúa el australiano Hugh Jackman, también se ha filmado en Londres ya que el director prefiere la libertad que le dan los inversores europeos a cumplir las exigencias de los productores de Hollywood. "Le gusta poder hacer lo que le da la gana sin tener que dar explicaciones", apunta Johansson.
Entre los proyectos que la actriz aún tiene pendientes de estreno están A good woman, un filme en el que actúa junto a Helen Hunt y Joseph Fiennes, ya estrenada en Europa y que llegará a las pantallas estadounidenses en diciembre, y The black Dhalia, la nueva producción de Brian de Palma. Recientemente, también se la pudo ver en La isla, una superproducción futurista que ha tenido mucho menos éxito del esperado. Para ella "fue un proyecto divertido" en cuyo guión vio "una historia de amor genuina" aunque lo que su director Michael Bay llevó a los cines fue una interminable película de acción vapuleada por la crítica.
"Scarlett Johansson, atrapada por Woody Allen - La protagonista de 'Match point' participa también en el siguiente proyecto del director neoyorquino
BARBARA CELIS - Nueva York
VÍDEO Trailer de 'Match Point' 03-11-2005
"Me considero una persona muy afortunada por vivir de lo que más amo"
Woody Allen se fijó en ella y cuando el célebre director neoyorquino propone matrimonio a una actriz, la respuesta suele ser un "sí, quiero". En el caso de Scarlett Johansson le bastó con escuchar el nombre del director para embarcarse en el rodaje de Match point, película que hoy se estrena en España. El inesperado no de Kate Winslet fue lo que la situó en el punto de mira de Allen. Johansson no lo dudó. "La propuesta era todo o nada. Me llegó el guión cuando sólo faltaba una semana para comenzar a filmar con una nota muy cariñosa en la que se me invitaba a saltar a bordo", recordaba la actriz, a punto de cumplir 21 años, durante un reciente encuentro con la prensa en Nueva York. "Woody me decía en la nota: 'Si no puedes estoy seguro de que trabajaremos juntos en otra ocasión". Mi reacción inmediata fue pensar que no me hacía falta ni leer el guión. He sido fan de Woody Allen desde que tengo 10 años", explicaba Scarlett, que ha devorado películas como espectadora desde niña y que debutó como actriz en la producción teatral alternativa Sophistry junto al actor Ethan Hawke.
En Match point, Johansson interpreta a Nola Rice, una aspirante a actriz que se embarca en una relación adúltera con Chris Wilson, un inquietante personaje al que da vida el joven Jonathan Rhys-Meyers, en un thriller de sorprendente final situado en Londres y que fue abiertamente celebrado por la crítica durante su presentación en el pasado Festival de Cannes. El papel que juegan el destino y la suerte en la existencia humana es uno de los temas sobre los que reflexiona la película.
Scarlett, menuda, de curvas pronunciadas y piel finísima, cuya fulgurante carrera incluye 23 películas y dos nominaciones a los Globos de Oro por las oscarizadas Lost in translation y La chica de la perla, es exactamente la antítesis de la actriz a la que interpreta en el filme, cuya vida profesional en la ficción parece abocada al fracaso. "Nunca me he planteado qué podría haber ocurrido sí me hubiera ido tan mal como a Nola. Siempre tuve claro que sólo quería hacer esto. Supongo que me considero una persona muy afortunada por vivir de lo que más amo y de que la gente vaya a ver mis películas, aunque soy consciente de que los actores somos prescindibles y todo puede cambiar. Pero no sabría qué hacer si de repente perdiera mi suerte. Creo que simplemente no lo pienso porque estoy muy ocupada decidiendo cuál va a ser mi próximo proyecto", afirma Johansson.
A los tres años, decidió ser actriz y a los siete, tras una crisis después de una prueba para un anuncio, ella y su madre decidieron que sólo aspiraría a películas de calidad. Con ocho años Johansson entró en la escuela de interpretación de Lee Strasberg y tras su debut en Broadway, a los nueve años, comenzó un lento pero sólido camino ascendente lleno de acertadas elecciones, entre ellas Manny and Lo, Ghost world, The man who wasn't there o El hombre que susurraba a los caballos, que la situó frente a Robert Redford en su doble condición de actor y realizador siendo sólo una adolescente.
Hace casi tres años, cuando Johansson aún no había estrenado Lost in translation y La chica de la perla, las dos películas que le dieron el reconocimiento definitivo de la industria, la revista Variety predijo que la joven era una de las grandes promesas de Hollywood. Pocos meses más tarde, sus predicciones se confirmaban. El aire sexy, los labios carnosos y la mirada inquieta de Scarlett comenzaron a acaparar portadas de revistas mientras los premios se sucedían. Ahora su nombre y su rostro son tan populares que la actriz neoyorquina se ha convertido en víctima predilecta de los paparazzi. "Me aburren, son un incordio. Pero supongo que es lo que tiene la fama. Después de Lost in translation mi vida ha cambiado, de eso no hay duda. Pasas de ser alguien anónimo a ser perseguido por los fotógrafos. Aunque también me ha permitido tener un abanico mucho más amplio sobre el que poder elegir. Y también, trabajar con Woody", declara esta actriz, cuyo matrimonio profesional con el neoyorquino ha funcionado tan bien que repite con Allen en su siguiente proyecto: The untitled Woody Allen Fall Project 2006.
"Esta vez se trata de una comedia y el rodaje ha sido un poco diferente porque Woody dirige y también actúa, que es algo que yo sólo había experimentado con Robert Redford", explica Johansson, quien afirma que Woody Allen "ya es un amigo para el que trabajaré siempre que me lo pida". La película, en la que además actúa el australiano Hugh Jackman, también se ha filmado en Londres ya que el director prefiere la libertad que le dan los inversores europeos a cumplir las exigencias de los productores de Hollywood. "Le gusta poder hacer lo que le da la gana sin tener que dar explicaciones", apunta Johansson.
Entre los proyectos que la actriz aún tiene pendientes de estreno están A good woman, un filme en el que actúa junto a Helen Hunt y Joseph Fiennes, ya estrenada en Europa y que llegará a las pantallas estadounidenses en diciembre, y The black Dhalia, la nueva producción de Brian de Palma. Recientemente, también se la pudo ver en La isla, una superproducción futurista que ha tenido mucho menos éxito del esperado. Para ella "fue un proyecto divertido" en cuyo guión vio "una historia de amor genuina" aunque lo que su director Michael Bay llevó a los cines fue una interminable película de acción vapuleada por la crítica.
Thursday, November 03, 2005
COERÊNCIA, ESTABIILIDADE E CORAGEM
“As teorias podem mudar, mas há qualquer coisa que vale sempre e em todos os tempos, é a coerência.” – Albert Camus
Nas presidenciais escolhe-se, acima de tudo, uma personalidade. É a escolha política mais pura de todas as escolhas. Nas eleições presidencial a minha escolha é a mais politicamente incorrecta do momento. Aquela que, paradoxalmente, está contra a corrente e é disso que eu gosto: Mário Soares.
Sabem porquê? Para além de uma questão de coerência, “essa coisa que vale sempre e em todos os tempos”, pois sempre votei em Soares, mesmo quando, em 1986, estava “derrotado” à partida, também pela estabilidade, que Cavaco, ao contrário do que proclama, não garante, e pela coragem, que sobra a Soares, quanto falta a Cavaco.
Soares e Cavaco representam, respectivamente, o “centro esquerda” e o “centro direita” mas as suas personalidades são diametralmente opostas. Soares é um cosmopolita, um “homem do mundo”. Cavaco é um provinciano, um “homem da terra”.
O que não deixa de ser interessante é sectores da intelectualidade de esquerda denegrirem as características de Soares contra os fundamentos das suas próprias convicções. Soares é um político puro, protagonista de duas aquisições decisivas na história portuguesa contemporânea: a democracia representativa e a plena adesão à UE. Soares intervém na política por prazer e, ao contrário de Cavaco, já foi tudo o que nela se pode ser.
Cavaco é um académico e tecnocrata, protagonista de um período de 10 anos de governo, com obra feita e controversa. Afirma-se o contrário do político profissional, mas nunca deixou de ser o que afirma nunca ter sido. Mostra enfado pela política, um dever, mais do que um prazer, um sacrifício pessoal e profissional realizado em nome “da salvação da pátria”.
Desiludam-se os que pensam, beatificamente, que o melhor Presidente para o governo reformista de Sócrates será Cavaco pois, para a sua estratégia presidencial, Sócrates é um “idiota útil” destinado a executar a componente dura das políticas de estabilização orçamental e as facetas impopulares das reformas do estado.
Após essa obra meritória, digo-o sem ironia, “Cavaco Presidente” agradecerá, grandiloquente, dando lugar a um governo de direita dirigido, quase certamente, por Manuela Ferreira Leite. Aliás o manifesto eleitoral de Cavaco “As minhas ambições para Portugal”, apesar da sua contenção política e moderação ideológica, não é mais do que um programa de governo.
A proclamada estabilidade soçobrará no momento considerado mais oportuno para derrubar o governo socialista. O derrube ocorrerá antes do fim do seu mandato, caso acorram factos excepcionais que o justifiquem, pois Cavaco, como qualquer outro Presidente, nunca descartará o exercício desse poder constitucional.
Em alternativa, caso chegue ao fim do mandato, o governo socialista carregará a cruz de ter sacrificado bastos “direitos adquiridos”, cuja reposição as corporações exigirão a Cavaco, no exercício da sua suposta competência de “não político”, contraposta, subliminarmente, à ociosa “senilidade” de Soares apresentado como um vulgar “político profissional” em fim de ciclo.
Ver-se-á até onde chegará o desaforo revanchista da direita, incluindo a extrema-direita, nos ardores do seu entusiasmo pela candidatura de Cavaco.
Mas tenho como certo que Cavaco não garantirá a estabilidade governativa pela razão simples que não será capaz de resistir às pressões para intervir nas funções do governo. Quanto mais Cavaco for o candidato único da direita menos margem de manobra terá para prosseguir um magistério independente que se constitua como fautor de estabilidade.
Não garante, por outro lado, a estabilidade do PSD pois minará a liderança de Marques Mendes em favor de uma liderança alternativa que possa vir a garantir a consagração da velha máxima, nunca antes alcançada pela direita, “uma maioria, um governo, um presidente”. E Marques Mendes é demasiado fraco para garantir um futuro governo de direita forte.
Todos nos podemos enganar e, muitas vezes, temos dúvidas mas, neste contexto, a palavra estabilidade mal esconde todo um programa de regeneração do regime, assente no reforço ou subversão dos poderes presidenciais, fazendo emergir Cavaco como um “homem providencial”, miragem que, ao longo dos tempos, sempre conduziu Portugal ao desastre.
(Artigo publicado no "Semanário Económico" na sua edição de 4 de Novembro de 2005.)
Nas presidenciais escolhe-se, acima de tudo, uma personalidade. É a escolha política mais pura de todas as escolhas. Nas eleições presidencial a minha escolha é a mais politicamente incorrecta do momento. Aquela que, paradoxalmente, está contra a corrente e é disso que eu gosto: Mário Soares.
Sabem porquê? Para além de uma questão de coerência, “essa coisa que vale sempre e em todos os tempos”, pois sempre votei em Soares, mesmo quando, em 1986, estava “derrotado” à partida, também pela estabilidade, que Cavaco, ao contrário do que proclama, não garante, e pela coragem, que sobra a Soares, quanto falta a Cavaco.
Soares e Cavaco representam, respectivamente, o “centro esquerda” e o “centro direita” mas as suas personalidades são diametralmente opostas. Soares é um cosmopolita, um “homem do mundo”. Cavaco é um provinciano, um “homem da terra”.
O que não deixa de ser interessante é sectores da intelectualidade de esquerda denegrirem as características de Soares contra os fundamentos das suas próprias convicções. Soares é um político puro, protagonista de duas aquisições decisivas na história portuguesa contemporânea: a democracia representativa e a plena adesão à UE. Soares intervém na política por prazer e, ao contrário de Cavaco, já foi tudo o que nela se pode ser.
Cavaco é um académico e tecnocrata, protagonista de um período de 10 anos de governo, com obra feita e controversa. Afirma-se o contrário do político profissional, mas nunca deixou de ser o que afirma nunca ter sido. Mostra enfado pela política, um dever, mais do que um prazer, um sacrifício pessoal e profissional realizado em nome “da salvação da pátria”.
Desiludam-se os que pensam, beatificamente, que o melhor Presidente para o governo reformista de Sócrates será Cavaco pois, para a sua estratégia presidencial, Sócrates é um “idiota útil” destinado a executar a componente dura das políticas de estabilização orçamental e as facetas impopulares das reformas do estado.
Após essa obra meritória, digo-o sem ironia, “Cavaco Presidente” agradecerá, grandiloquente, dando lugar a um governo de direita dirigido, quase certamente, por Manuela Ferreira Leite. Aliás o manifesto eleitoral de Cavaco “As minhas ambições para Portugal”, apesar da sua contenção política e moderação ideológica, não é mais do que um programa de governo.
A proclamada estabilidade soçobrará no momento considerado mais oportuno para derrubar o governo socialista. O derrube ocorrerá antes do fim do seu mandato, caso acorram factos excepcionais que o justifiquem, pois Cavaco, como qualquer outro Presidente, nunca descartará o exercício desse poder constitucional.
Em alternativa, caso chegue ao fim do mandato, o governo socialista carregará a cruz de ter sacrificado bastos “direitos adquiridos”, cuja reposição as corporações exigirão a Cavaco, no exercício da sua suposta competência de “não político”, contraposta, subliminarmente, à ociosa “senilidade” de Soares apresentado como um vulgar “político profissional” em fim de ciclo.
Ver-se-á até onde chegará o desaforo revanchista da direita, incluindo a extrema-direita, nos ardores do seu entusiasmo pela candidatura de Cavaco.
Mas tenho como certo que Cavaco não garantirá a estabilidade governativa pela razão simples que não será capaz de resistir às pressões para intervir nas funções do governo. Quanto mais Cavaco for o candidato único da direita menos margem de manobra terá para prosseguir um magistério independente que se constitua como fautor de estabilidade.
Não garante, por outro lado, a estabilidade do PSD pois minará a liderança de Marques Mendes em favor de uma liderança alternativa que possa vir a garantir a consagração da velha máxima, nunca antes alcançada pela direita, “uma maioria, um governo, um presidente”. E Marques Mendes é demasiado fraco para garantir um futuro governo de direita forte.
Todos nos podemos enganar e, muitas vezes, temos dúvidas mas, neste contexto, a palavra estabilidade mal esconde todo um programa de regeneração do regime, assente no reforço ou subversão dos poderes presidenciais, fazendo emergir Cavaco como um “homem providencial”, miragem que, ao longo dos tempos, sempre conduziu Portugal ao desastre.
(Artigo publicado no "Semanário Económico" na sua edição de 4 de Novembro de 2005.)
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